NATAL PRESS

Ele tirou da estante um livro de Anais Nin. "Delta de Vênus". Abriu, leu uns trechos, escolhidos a dedo, claro. Ela riu, apertando os olhinhos pervertidos e provocantes. Sabia quais as intenções dele com aquilo. Também eram as intenções dela, ao pedir que escolhesse um livro na estante cheia deles. Sabia que ele possuía - danado como era - de Marques de Sade a Henry Miller, de Gregório de Mattos ao Drummond mais picante. Pediu para ele ler um trecho de Anais, enquanto o olhava: a boca dele em movimento a excitava. Sempre fora assim, desde que haviam se conhecido anos antes, em um sarau e ele, timidamente, recitou uma poesia de Florbela Espanca. Ela foi falar com ele, logo após, percebeu que ele já havia bebido uns vinhos a mais e trocaram telefone, apesar da inibição dele. Ao se despedirem, trocando um aperto de mãos e dois beijos no rosto, ela sentiu um formigamento no meio das pernas.

Por sua vez, ele lia parágrafos de Anais no piloto automático, sem concentrar realmente no texto. Com o chamado "rabo do olho", prestava atenção aos movimentos dela. Sempre fora fascinado com a forma como ela se movia, como ela segurava com as duas mãos a xícara de café, como se fosse um filhote desprotegido; a maneira como arregalava e cerrava os olhos diante de uma alegria ou contrariedade. Era uma mulher de movimentos contidos, delicados, como uma gueixa morena e pós-moderna. Mas, essa contenção de gestos não chegava à cama... Naquele espaço retangular e místico, ela se tornava polvo, sereia, Medusa, Messalina e ao pensar nisso, tentou se concentrar na leitura para que ela não desconfiasse de seus devaneios.

Contudo, ela sabia muito bem que ele estava lendo mecanicamente, já havia - após tantas leituras, tantos gemidos e sussurros - aprendido a diferenciar as modulações da voz dele. Sabia que ele estava olhando para ela e isso a excitava. Conhecia bem seu corpo e, talvez até mais que sua pele, os efeitos que o homem ao seu lado causava em sua libido. Jamais esquecera a primeira vez que fizeram amor, história que parecia saída de um romance (erótico, claro). Após se conhecerem no sarau, ela telefonou para ele e marcaram um encontro para ela mostrar a ele seus escritos. Escolheu aqueles que jamais mostrara a ninguém e não sabia porque diabos iria mostrar justamente a um desconhecido.

Encontraram-se em um barzinho no centro boêmio da cidade. Ele queria um café, ele pediu uma cerveja. Conversaram sobre a vida, o tempo, os livros que estavam lendo, os casamentos e as separações de cada um. Ele não tirava os olhos das mãos dela, delicadas, como de uma boneca, nervosas, tamborilando na mesa de metal. Ela se fixava na barba mal feita dele e quando ele virava o rosto para chamar o garçom ela se detinha na nuca dele. Apertou as pernas, o que era um sinal inequívoco de seu corpo indicando que estava em vias de se excitar. Cada frase fosse sobre cinema, família, zodíaco ou as taxas de juros do Banco Central pareciam carregar uma eletricidade erótica. Ela se afogueava com a voz dele e as mãos gesticulando como se estivesse regendo uma orquestra. Ele, começava a se abrasar com os olhos dela se apertando como se estivesse tentando ler um texto em letras miúdas, e com os gestos contidos, intimistas. Ele citou um livro de Vargas Llosa (escritor que ela amava e cuja vertente erótica conhecia desde a adolescência) e prometeu emprestar a ela. Era a chance que ela estava esperando. Propôs que fossem ao apartamento dele, ali mesmo no Centro, pegar o livro, já que viajarei depois de amanhã e não sei ao certo quando volto, disse ela. Oh, claro, não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje!, Concordou ele, entrando no jogo. Terminaram as bebidas e rumaram para a quitinete dele, duas ruas dali. O lugar era de certa forma arrumado - mais do que ela poderia imaginar tratando-se de um homem sozinho - e de outra, completamente anárquico, com pôsteres colados nas portas em paredes e livros empilhados sobre outros livros, como se brotassem pela casa. Aquilo a atraiu e quando ele propôs abrirem um vinho, ela aceitou na hora. Brindaram e continuaram conversando, sobre tudo e sobre nada. Até que ela pediu para ver um livro de cara preta no alto da estante - parecia de Poe - e subiu no banquinho. Cuidado!, ele disse, mas, ela nem ligou, além de ser ousada, gostou da sensação de atiça-lo subindo os degraus (qual seria o efeito em ele vê-la de baixo para cima?...) quando pegou o livro (não era Poe, mas, um livro sobre a Wicca) distraiu-se olhando outros volumes e o pé deslizou na madeira do tamborete, de maneira que - levando consigo duas dúzias de livros - caiu no chão de forma atabalhoada. Ele, tentando aparar a queda dela, caiu também ao chão. Atônitos, deitados sobre livros e um pouco doloridos, se perguntaram mutuamente se estavam bem. Antes que respondessem, ela aproximou o rosto do dele e o beijou (queria fazer aquilo havia horas, desde que se encontraram no bar...). Aprovou o sabor do beijo dele, a forma de movimentar a língua em sua boca, a rispidez do bigode e da barba, e, excitada com a forma como - mesmo entre os livros abertos - ele a segurava com os braços, pela nuca e pela cintura, começou a desabotoar a blusa. Ele desvencilhou-se também da dele e começou a beijá-la o corpo inteiro, detendo-se nos vãos e fendas, até que ela não aguentou mais e pediu que ele entrasse nela. Fizeram amor rápida e furiosamente, em meio a Saramagos, Jorge Amados e sob as bênçãos de Florbela e Hilda Hilst.

Recordando aquilo tudo, ela sentiu o formigamento no corpo, em especial no meio das pernas, e constatou que estava molhada. Ele, olhando fixamente para ela, também recordou o que acontecera. Despediram-se prometendo um reencontro, que não aconteceu. Ele teve de viajar, a trabalho, durante quase um ano e não se preocuparam em manter contato, por negligência ou esperança que se encontrassem por acaso, em um passe de mágica. Neste tempo, ela se casou. Retornando à cidade, ele soube do novo estado civil dela e terminou por se casar também, com uma namorada da adolescência que também voltara a morar na cidade.

Foi em um lançamento literário, como era para ser, que se reencontraram. Olharam-se, cumprimentaram um ao outro e sentiram, como se ensaiado, a mesma sensação, de um fogo interior. Estavam ambos sozinhos (a esposa dele, trabalhando, o marido dela se entediava em eventos literários) de maneira que combinaram se encontrar.

Daquela vez, ela propôs um restaurante afastado da cidade, em parte por discrição (eram ambos casados), em parte por romantismo. Surpreendeu-se em vê-lo chegar bem arrumado e barbeado. Conversaram como se não tivesse se afastado mais que um final de semana. Riram, contaram histórias picantes, comeram ostras e beberam vinho branco. Por fim, ele revelou que estava morando em uma casa de praia, ali perto. Ela propôs que ele emprestasse alguns livros (momento em que ele não conteve um sorriso malicioso) e foram para lá. Era igualmente organizada e anárquica, mas, com uma decoração mais elaborada e rústica. Ele serviu um licor de pequi e ela pediu para ver a biblioteca dele, ao lado do quarto de dormir. Qual mesmo o livro que você quer emprestado?, ele perguntou. Delta de Vênus, de Anais Nin!, Respondeu ela.

E lá estavam ali de novo, entre livros e aquela eletricidade pelo ar. Ele fechou o livro. O que virá agora?, Pensou ela. Já sei, ele vai me olhar nos olhos, dizer que eu estou linda, que morre de tesão por mim, que eu pareço saída de um romance libertino do século 17, aí ele vai abaixar as alças do meu vestido e como estou sem sutiã, vai beijar meus seios, do jeito que eu gosto, mordiscando os mamilos e puxando-os, de maneira que fiquem um pouco doloridos... depois vai se abaixar, levantar a parte de baixo do meu vestido e vai ver que estou de calcinha preta de renda, que ele adora, vai abaixa-la e vai enfiar-se, boca e nariz, no meio das minhas pernas de maneira que vou senti-las bambas, e depois vai me deitar no chão suavemente, tirar a roupa (ele sabe que eu adoro vê-lo tirando a roupa lentamente), me beijar inteira, inteira, onde homem algum me beija, depois vai deixar que eu faça o mesmo nele, para, por fim, entrar em mim e me dar prazer, um prazer alucinado que eu só sinto com ele... ai meu deus!...

Tenho uma coisa para te dizer, disparou ele, os olhos faiscando: Você está linda!...

Fui um dos que lamentou a não-reeleição de Amanda Gurgel (PSTU) à Câmara Municipal de Natal. Tanto pelo fato dela ter tido a segunda maior votação (8.002 votos) entre os candidatos, como por ter sido boa vereadora, que defendeu as causas para a qual foi eleita e não se furtou a debater os temas que propôs e a "peitar" vereadores tradicionais e anacrônicos, como Luiz Almir.

Percebi que a indignação maior dos eleitores e fãs da vereadora foram em relação à injustiça da votação excelente não lhe render a continuidade como vereadora. Não deixam de ter razão. Obter 8.002 votos e ver vereadores como Sueldo Medeiros (PHS) eleito com 1.829 votos ocuparem seus lugares parece e talvez seja uma aberração.

Explica-se: os outros candidatos a vereador do PSTU não conseguiram somar junto com Amanda a quantidade mínima de votos - 12 mil para eleger um edil -  para atingir o quociente eleitoral. O total do partido foi de 10.074.

Eu, particularmente, sempre fui contra o famigerado quociente eleitoral. Sei de suas  - relativas - boas intenções. Visa garantir que um partido, uma ideologia, uma ideia, tenha espaço no Legislativo. O quociente eleitoral visa favorecer a questão da proporcionalidade partidária, consequentemente a representatividade. Na teoria, uma iniciativa democrática. Na prática, gera aberrações como Amanda não ter sido eleita, e outras mais, como os candidatos com pouquíssimos votos elevados a deputados federais por Tiririca e Enéas Carneiro, por exemplo.

Eu disse no parágrafo anterior que sempre fui contra esta regra. Ao contrário de quase todos os militantes, políticos e partidos de Esquerda (como o PSTU), que defendem o quociente. Mas, não desejo sequer entrar neste mérito, que já daria um outro texto.

Não faltou quem lembrasse que o PSTU, em conflito interno, se isolou e partiu para uma camicase aventura solo. O professor e roqueiro Giancarlo Vieira, registrou em sua página no Facebook que  "o PSTU é o único partido do mundo vítima de seu próprio lema Fora Todos... Enquanto a esquerda não se conscientizar que seu purismo ideológico não se estende à direita organizada, unida e sem escrúpulos, o resultado vai ser este"

Também na rede, o advogado Daniel Costa postou que "Amanda Gurgel foi eleita vereadora por força da mídia. Agora, apesar dos votos, ela mostrou não possuir uma qualidade fundamental do ser político: a capacidade de articulação. De que adianta um turbilhão de votos, se lhe falta aptidão para fazer prevalecer os interesses dos seus eleitores, através do trabalho de articulação com os demais partidos?"

Em suma, muita gente teve a percepção que a estratégia do partido foi suicida. E a regra do jogo - que acho errada, repito - era conhecida da sigla e da vereadora. Detratores dela, sentenciaram que ela esperava ter novamente os 32.819 votos que a consagraram e, por isso, acreditava não apenas se reeleger como ainda "arrastar" outro vereador do PSTU, como fez em 2012 com Marcos Antônio e Sandro Pimentel, ambos do PSOL, e o segundo, ironicamente, reeleito.

Mas, quero direcionar o raciocínio agora para o que dá título a este texto: a indignação.

Testemunhei nas redes sociais, muita, mas, muita gente mesmo indignada com a não-reeleição de Amanda. Com razão, como já disse antes. Mas, agora a pergunta em tom de provocação: o que este eleitorado - pelo menos 8 mil natalenses e entre abstenções e moradores de outros municípios potiguares, muito mais gente - farão com essa indignação agora?

A usarão apenas para vociferar durante uns dias no Facebook e nos grupos de zap? Ou a usarão em 2018?

Sim, pois 2018 é a próxima eleição. E deduzo que os eleitores de Amanda votarão em candidatos a deputados estadual e federal e senador que sejam comprometidos com uma reforma política que inclua o fim do quociente eleitoral.

Mas, aí que mora o problema: boa parte dos eleitores de Amanda ou são do PSTU e portanto, comungam do "Fora Todos" que não se adequa à política, posto que sozinho não faz nada na política ou são "apolíticos" e apostaram na vereadora como a "não-política", portanto, não votariam em candidatos da "política velha", sejam do PT, sejam do PSDB. E quantos deputados federais o PSTU tem? Nenhum.

Em suma: o eleitor de Amanda que está espumando de raiva nesta semana tende a joga-la na vala comum do Fora Todos, que iguala, para dar um exemplo nacional, um Eduardo Suplicy a um Eduardo Cunha. Indignação é bom, mas, quando sem utilidade prática, morre nos comentários de posts de Facebook.

O amigo leitor e a amiga leitora devem se lembrar que antes mesmo das Olimpíadas do Rio, o ilustre ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirmou que os homens procuram menos o atendimento de saúde porque "trabalham mais do que as mulheres e são os provedores" das casas brasileiras. Ele também afirmou que os homens "possuem menos tempo" do que as mulheres.
 
Criticado até pela própria filha, divulgou depois uma nota à imprensa em que "pede desculpas se foi mal interpretado".
 
Aí começaram os jogos da Rio 2016. Nas quartas de final do futebol feminino teve aquele jogaço entre Brasil x Austrália decidido nos pênaltis com duas defesas da goleira Bárbara, lembra? Pois é. Lembro também de um certo Marcos Clay, membro do Conselho Federal de Administração (CFA) que numa postagem sua no Facebook, comentou: "Eu odeio preto, mas essa goleira do Brasil tinha chance".
 
O infeliz conseguiu a façanha de juntar racismo, machismo, sexismo e grosseria ao mesmo tempo. Duramente criticado, ele se defendeu e disse que tudo "não passou de uma brincadeira, fui mal interpretado".
 
"Foi uma brincadeira de mau gosto, até já tirei o post. Uma brincadeira que infelizmente algumas pessoas se ofenderam, mas não era minha intenção. Tanto é que minha esposa é negra, todo mundo sabe disso. Quem me conhece sabe que eu não sou racista, tenho vários amigos que são negros, não tenho problema com isso", afirmou Clay.
 
"Uma pessoa pegou meu post e republicou dando uma conotação de racismo. Deve ter alguma coisa contra mim. Já fiz uma retratação dizendo que era uma brincadeira. O povo de hoje está muito melindrado, ninguém pode mais falar nada nas redes sociais que vira polêmica. Não ofendi ninguém diretamente, não citei o nome de ninguém. Tudo bem que foi um comentário infeliz", finalizou Clay.
 
Na mesma época, outro caso de "mal entendido": assim que o ginasta Arthur Nory ganhou a medalha de bronze, vieram á tona comentários racistas que ele fez num vídeo que acabou ganhando repercussão na internet sobre o seu então companheiro de equipe, Ângelo Assunção, em 2015. Acuado, Nory se defendeu, pediu desculpas a quem possa ter se ofendido com o video. "Todos cometem erros. Eu cometi, mas realmente me arrependi. Sofri muito e me arrependo até hoje, porque estou sem patrocínio, nada. Foi uma fatalidade"
O agredido, Ângelo disse que "não tenho mágoas dele, de verdade. Inclusive somos muito próximos. Torci muito por ele. Tenho muito orgulho do Nory. Agora eu espero que ele seja um medalhista também fora do tablado". Em um tom que não parece acreditar no arrependimento do ginasta.
 
Por que correlacionar os três casos, de Ricardo Barros, Marcos Clay e Arthur Nory?
 
Por uma razão: pelos pedidos de desculpas dos três.
 
Nos três casos, eles pediram desculpas públicas e garantiram arrependimento, mas, sempre deixando claro que nós é que os interpretamos errado.
 
Ou seja, eles pedem desculpas, sim, mas tentando deixar bem claro que quem se ofendeu, quem os criticou é que são "exagerados", talvez, "que vemos maldade em tudo", provavelmente, e, na pior das hipóteses, já que não sabemos interpretar suas palavras, é que somos burros.
 
Sempre tive um pé atrás com quem se defende de algum tipo de acusação dessa forma: "Peço desculpas se ofendi alguém".
 
As desculpas são válidas quando a pessoa tem a convicção que ofendeu alguém. Sabe quem ofendeu e por que, e recorre ao pedido de desculpas.
 
Errar é humano. Admitir o erro, mais humano ainda. Pedir desculpas insinuando que as outras pessoas é que são tapadas, também é humano, mas, não pega bem e é calhordice.

dissimulo meus temporais
no sereno dos olhos
cravejados de diamantes

pérolas extraídas a ferro e fogo
das ostras insones, bêbadas
de mar

(jogadas aos porcos
que regurgitam em minh´alma)

em meus olhos marejados
uma nau sangra
em oceânica dor

(à deriva, naufraga o amor...)

Corpo a corpo: nós

Na batalha inglória (do amor)

Destilando mel e fel da flor

Da fonte onde tudo o mais jorre...

Tua língua crua em mim

Unha, pelo, dedos, pele

Tudo que mais se revele

Do nada que nos socorre

Degusto em desvario, o teu sumo

Teu vinho, teu rio, teu licor

Em oceânica, alegre dor

Ondas: ressaca, praia, porre!

Dedos, sulcos, gozos, vãos

Teu corpo inteiro em minhas mãos

Eu?... Eu faço amor

Como quem morre!...


dissimulo meus temporais
no sereno dos olhos
cravejados de diamantes

pérolas extraídas a ferro e fogo
das ostras insones, bêbadas
de mar

(jogadas aos porcos
que regurgitam em minh´alma)

em meus olhos marejados
uma nau sangra
em oceânica dor

(à deriva, naufraga o amor...)

Uma mulher como esta deve ter nome de flor, pensei, quando a vi pela primeira vez. Era o lançamento do livro de poesias de um amigo, e, entre o vinho e conversas tediosas, apercebi-me da mulher à minha frente.


Era linda, de pele leitosa e olhos indecisos entre o negro e o castanho. Cabelos negros presos em coque e um sorriso luminoso. Decidi que precisava conhecê-la e o destino conspirou a meu favor. Uma amiga em comum nos apresentou. Chamava-se Violeta. Contei a ela minha impressão sobre seu nome; ela riu e disse que queria ouvir mais sobre minhas impressões.

Jantamos no dia seguinte, e o vinho branco serviu como senha para que descobríssemos gostos em comum; livros, filmes, músicas, hábitos... Eu, artista plástico de relativo destaque ela, uma atriz e encenadora em ascensão, como vim a descobrir. Os muitos gostos em comum se tornaram cumplicidade e não tardou a se tornar amor.

Um amor que desaguou em casamento. Nem mesmo os invejosos conseguiram tirar um pedregulho do castelo onde erguemos nossa história de amor. O êxito emocional fez-se seguir pelo profissional; tive telas vendidas para a Holanda e a Itália; Violeta ganhou ovações e prêmios por uma encenação de Medeia... Consideramo-nos preparados para conquistar o mundo. Violeta a flor, de nome e trato; eu, a pedra, pela personalidade e firmeza em ações e opiniões.

Não tardaram os conflitos. Ciúmes, quase sempre sem razões e intempestivos; intolerância, muitas vezes próxima da grosseria; ambos guardando rancores como quem guarda bijuterias em uma caixa. Minhas telas sofreram o efeito da crise; os temas se tornaram mais lúgubres. Violeta, por sua vez, desaguava nas personagens a raiva que carcomia seu coração. Atrasei a entrega de telas e diminui o ritmo de trabalho. Ela chegava atrasada a ensaios e se tornava mais ríspida com os colegas de palco. Afinal, a maior parte do tempo era dedicada ao jogo das ofensas, da espera pela ironia para responder a uma ironia antes colocada à mesa. E o castelo ruiu, como seria de se esperar.

Encontramo-nos três vezes Violeta e eu, após a separação. Ensaiamos retomar o casamento, trocamos mais frases ferinas, choramos um pouco, mas, por fim, decidimos manter-nos longe um do outro. O tempo curaria as dores, como costumam dizer e era, possivelmente, verdade.

Porém, a separação parece ter atraído a sorte contra nós. Meses depois, dirigindo com sono, Violeta bateu o carro contra um caminhão na BR. Ficou meia hora sangrando presa às ferragens. Perdeu a perna direita. Estava fazendo fisioterapia e tentando se adaptar a uma prótese.

Quanto a mim? Cá estou em um restaurante, lembrando de tudo que relatei e esperando Violeta chegar. Ouvi sua voz atrás de mim. Senti sua mão em meu ombro . Com um barulho estranho – a prótese, claro – ela sentou-se à minha frente. Talvez estivesse sorrindo. Talvez tivesse pintado novamente o cabelo. Esqueci de relatar somente este detalhe, sobre mim; uma semana depois do acidente de Violeta, senti uma dor nos olhos, que tentei aplacar com colírios. Como a dor não passava e a vista começou a ficar enevoada, recorri a um oftalmologista. Descobri que havia contraído uma bactéria rara, similar ao glaucoma, e que estava ficando cego. Fui cirurgiado, na esperança de manter a visão, mas foi inútil. Como Borges, fiquei cego.

Eu e Violeta estamos aqui, rindo de nosso quinhão de sofrimento nesta vida. Um cego e uma aleijada, ela riu. Agora, não era o mundo que tínhamos para conquistar, mas sim, a vida cotidiana, como fazer um café ou fritar um ovo.

Rimos disso e pedi que ela colocasse mais vinho em minha taça...


1

O que me engole e devora
É o súbito, o indigitado
O alimento que me apavora
O vômito regurgitado

2

O que me tange e apascenta
É o cajado, adestrado
Cujo golpe me arrebenta
Como o verbo bem amado

3

O que me desce à garganta
É a vida, mal mastigada
Que ainda nos espanta
E faz de nós quase nada

4

O que me sustenta e redime
É o verso em decomposição
Como quem comete um crime
E sonha com a redenção

Quarteto de degustação

1

O que me engole e devora
É o súbito, o indigitado
O alimento que me apavora
O vômito regurgitado

2

O que me tange e apascenta
É o cajado, adestrado
Cujo golpe me arrebenta
Como o verbo bem amado

3

O que me desce à garganta
É a vida, mal mastigada
Que ainda nos espanta
E faz de nós quase nada

4

O que me sustenta e redime
É o verso em decomposição
Como quem comete um crime
E sonha com a redenção

Quarteto de degustação

1

O que me engole e devora
É o súbito, o indigitado
O alimento que me apavora
O vômito regurgitado

2

O que me tange e apascenta
É o cajado, adestrado
Cujo golpe me arrebenta
Como o verbo bem amado

3

O que me desce à garganta
É a vida, mal mastigada
Que ainda nos espanta
E faz de nós quase nada

4

O que me sustenta e redime
É o verso em decomposição
Como quem comete um crime
E sonha com a redenção



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