NATAL PRESS

Ainda há faxineiros no vale do Silício

Freqüentemente, fala-se nos desafios de um mundo globalizado no qual , querendo ou não, o Brasil está inserido. Nada mais verdadeiro e nada mais enganador. Não se discute a ocorrência de novos fenômenos, que tornam cada vez mais complexa a conjuntura. No entanto, é importante reconhecer uma verdade: Por mais que tenham ocorrido mudanças, as sociedades mantiveram as suas relações intrínsecas.

Fala-se em globalização, outros usam “mundialização”, como se fosse uma ocorrência bombástica, sem precedentes. Ora, não é nada disso. É possível falar, sem exagero algum, em globalização na época do Império Romano, ou na época das grandes descobertas geográficas, isso para não falar na época contemporânea. Acontecimentos econômicos e culturais originados em um ponto qualquer do planeta se expandiram, ocupando espaços cada vez maiores.

Devemos à globalização o consumo da batata, do fumo, a disseminação de normas jurídicas, ou a adoção de diferentes maneiras de trajar-nos.

O que mudou drasticamente foi a velocidade de propagação das novidades. Para ilustrar esse fato, basta apoiarmo-nos em exemplos banais, ao menos aparentemente. Podemos nos lembrar, afinal, estamos falando numa época da qual muitos de nós são testemunhas, do tempo necessário para que um sucesso literário , musical ou cinematográfico no Exterior impactasse nossos hábitos. A mini-saia levou mais de um ano. Sucessos dos Beatles, algo parecido, e por aí vai. A revolução das telecomunicações acrescentou esse componente quase mágico da instantaneidade, acrescido da superabundância de dados e informações – nem sempre imprescindíveis, mas essa é uma outra história.

A proliferação de informações, fez evoluir os mercados para algo bem próximo da ficção teórica chamada de “mercados perfeitos”. Nesses, os dados estão permanentemente atualizadas e à disposição de quem os queira usar. Se, na época das guerras napoleônicas, atribuiu-se o enriquecimento dos Rotschilds à informação rápida que tiveram quanto ao desfecho da derrota de Napoleão em Waterloo (pombos-correio teriam sido portadores das notícias), hoje qualquer operador de mesa de uma instituição financeira possui, bem à sua frente, um ou mais monitores com as cotações dos principais mercados mundiais. Aos pombos-correio a aposentadoria!

Sub-rotinas acessíveis substituem “o faro” do analista, o qual prefere errar acompanhado a assumir o risco de acertar sozinho. Isso explica, ao menos em parte, os movimentos de manada do mercado financeiro. Só meu amigo Pé Trocado, já mencionado, ignora a massa, mas já recebeu aviso prévio.

As operações ditas de ‘arbitragem’ que consistem em comprar barato num lugar para vender em outro onde a cotação for maior, mantiveram sua graça. Operadores mais velhos das nossas bolsas ainda se lembram das operações ‘Ponte Aérea’, nas quais, dependurado numa linha telefônica alugada, tentava-se comprar no Rio e vender em São Paulo, ou vice-versa. Aqueles feitos viraram folclore, debate saudosista de mesas de bar, as quais, por sinal, pouco mudaram.

Estão sendo criadas condições que requerem um novo tipo de profissional. Evidentemente, isso não vale para os ramos tradicionais da economia. Arar, por exemplo continuará sendo uma atividade que irá requerer o contato de máquinas, por mais evoluídas que sejam, com o solo. Projetar uma viga demandará os mesmos cálculos, mesmo se a saudosa régua de cálculo foi aposentada e substituída por um software sofisticados. Quanto ao desentupidor de pias, (por enquanto) , o comando “Iniciar”, “Desentupir” dirigido a um robô precisa ser aprimorado.
O lixo (em quantidades crescentes, por sinal) continuará sendo recolhido e o sapateiro não irá além dos sapatos, apesar de as indústrias disporem de métodos de CAD (projetos auxiliados por computador). O bordão latino: Ne sutor ultra crepidam – sapateiro não vá além das sandálias - possui uma barba de mais de dois milênios. Para apará-la, os préstimos de um barbeiro ainda merecem alguma consideração.

Qual o elemento comum nas mudanças, se é que houve mudança?
A resposta é simples. Não mudou o “o quê”, mudou o “como”. Dito de uma forma mais empolada, houve um crescimento exponencial da função meio. A mudança radical ocorreu no setor de serviços. Mesmo assim, as alterações foram muito mais na forma do que na profundidade. De fato, desapareceu a figura do contador com viseira e protetor de mangas. No entretanto, a função permanece, sendo desempenhada de forma muito mais rápida, com o auxílio da informática. Os cínicos dirão que assim erra-se com maior rapidez. Deixem que digam, que pensem, que falem...

Essa evolução, contra a qual seria bobagem insurgir-se, sob pena de virar objeto de chacota, introduziu uma dinâmica peculiar à divisão mundial de mercados. Como conseqüência imediata, a demanda por determinados profissionais explodiu em diversos locais. A má notícia é que em decorrência disso , paralelamente ao fenômeno de desemprego - vamos chamá-lo de tecnológico, embora isso em nada atenue o trauma dos alijados do mercado de trabalho; tecnológico ou não, desempregado continua desempregado - as exigências se tornaram cada vez maiores, acarretando uma demanda crescente por indivíduos preparados para enfrentar novos desafios, além de criar uma necessidade de contínua atualização; esse fato expôs uma fraqueza do sistema educacional daqui e de alhures. Parece que dominar o IPad não bastará, mas ai do dinossauro que não souber

Com as novas exigências, trazidas pela alta tecnologia, os profissionais necessitam estar altamente atualizados. Não só na sua especialidade, mas devem conhecer também tudo aquilo que impacta sua atividade-fim. O perfil polivalente vale para todos: em atividades de emprego tradicional, que rareiam a cada dia; ou em prestação de serviços, que crescem e se renovam a olhos vistos, o perfil generalista é desejado. Novamente com a palavra, os mesmos cínicos dirão que ao invés de profissionais que saibam tudo sobre alguma coisa bem definida, serão requisitadas pessoas que saibam nada sobre tudo. Que saudade sentimos do médico que acompanhava a família, quando nos defrontamos com um especialista em traumas do joelho (mal) pago por um (custoso) convênio. Sem tocar no paciente, irá solicitar-lhe uma extensa bateria de exames, antes de fazer valer seu talento. Isso não impedirá um colega dele, vez por outra, de retirar o rim errado.

Assim, compreende-se que a educação formal dada ao cidadão deste novo século siga um roteiro diferente. A escola precisa estar em constante renovação de seus currículos. Isso é um pouco mais complicado do que introduzir “o novo”, seja lá o que isso possa significar.
A obsolescência não espera que se conquiste o almejado canudo, já faz as suas vítimas nos bancos escolares. Uma atualização contínua dos educadores é imprescindível. Para tanto, a combinação da decantada “vontade política”, associada à contribuição decisiva do vil metal será essencial.
O mercado de trabalho sofre solavancos incríveis, postos de trabalho são suprimidos e, concomitantemente, inúmeras vagas não são preenchidas. Como poderá um torneiro dispensado ocupar uma vaga de analista de software? Haja dramas! Desemprego coabitando com anúncios de “Procura-se para início imediato”.
Para todos os efeitos, o mundo encolheu, perdeu a dimensão de arquipélago para transformar-se na famosa “aldeia global”. Ao invés de dirigirmos um calhambeque, estamos a bordo de um bólido da Fórmula I, cientes da existência de curvas Tamburello assassinas.

Virou moda esculhambar a imagem dos mercados que se auto-regulam, ou seja, cuidam de si, dispensando intervenção, desde que haja regras do jogo corretas. Não faltam argumentos e evidências a favor da tese. No entanto, eles se auto-regulam, sim. Ocorre que nenhuma sociedade pode suportar as conseqüências desse processo. No seu automatismo isso pode levar a desastres insuportáveis.
Admitamos. A sociedade está em contínua evolução.(Essa frase merece um lugar de honra na galeria das maiores obviedades)
Mesmo assim, falar em ineditismo encerra um exagero. Na metade do século XIX o escritor romeno Ion Creanga, famoso pelos seus contos infantis e seu tosco antissemitismo, escreveu, em tom de troça: “Com tanta educação quem irá engraxar-nos as botas?”
Trata-se de um desafio complexo. Para que ele não se transforme em pesadelo, a sociedade deverá se adaptar. Antes isso que discursos solenes para justificar o fracasso. A alternativa inaceitável seria unir o fútil ao agradável. Por quanto tempo?

*Crônica do livro ´´A luta continua`, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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A irmã só sabia pregar-lhe peças. Precisava dar um telefonema urgente e não conseguia fazê-lo a par­tir daquele mudinho. Olhava desolado para aqueles res­tos “tecnologicamente corretos”. 

O telefone espatifado tocou sem avisar. Feito um autômato, atendeu.
– Pronto.
– Bom dia. O senhor atendeu uma chamada a cobrar; para continuar, introduza um diamante. Se o fizer estará concorrendo a um secador de cabelos. A Companhia agradece sua preferência.
– Não preciso de secador de cabelos. Sou careca.
– Estar concorrendo é apenas o primeiro passo. Ganhar é outra coisa. Introduza o diamante.
– Mas introduzir onde? O telefone está quebrado!
– Então procure o nosso setor de consertos.
– Mas eu já liguei para o setor de consertos. Disse­ram que entrariam em contato.
– Pois então, estou ligando do setor de consertos. Introduza um diamante para continuar. Não aceita­mos rubis.
– Deve haver uma confusão. Não tenho diamante algum.
– Na nossa Companhia não há confusões. Sem diamante, a ligação cairá dentro de meia-hora.
– E por que usa maiúsculas para designar sua em­presa?
– E por que não? Além disso, essa é uma norma interna. O senhor cometeu uma indiscrição. Como sabe que usei maiúsculas?
– Foi apenas um palpite. Gostaria que consertas­sem o meu telefone.
– Qual é o problema?
– A minha irmã o quebrou.
– Ela o quebrou dentro da residência ou fora? Se for dentro, trata-se de um problema doméstico, fora de nossa alçada; se for fora, fica dentro de nossa al­çada. Entendeu? Fora, tá dentro e dentro, tá fora.
– Ela o jogou pela janela na calçada e eu o trouxe para dentro de casa. Fiquei com pena.
– Então o problema ocorreu fora da residência?
– Pode-se dizer que sim. Tenho certeza que sim.
– Qual o nome de sua irmã?
– Isso é importante?
– Preciso preencher o formulário. Estou procurando o campo para “parentes próximos”. Não estou achando. Terei de ligar novamente para o senhor.
– Esqueça esse campo, continue.
– Não posso. Já abri a ocorrência e o senhor me deu uma informação, que não consigo classificar. Consultarei minha supervisora. Essa informação pode ser importante para a Companhia. A Companhia agradece sua preferência. Voltaremos a contatá-lo. Será aplicada a tarifa de re-chamada.
– Não, não desligue.
– Desculpe, tenho instruções precisas.
– Quero falar com a supervisora.
– Ela não veio trabalhar hoje.
– Mas a senhora disse que precisaria tirar a dúvida com ela.
– Perfeitamente. Perguntarei assim que ela voltar. Ela está de férias no momento.
– Está certo, mas, na ausência dela, alguém a substitui, ou não?
– Claro que alguém a substitui. Ninguém é insubs­tituível. Uma posição importante como essa nunca fica descoberta.
– E quem a substitui?
– Eu.
– Entendo. Como irá proceder?
– Tentarei fazer o melhor. Recapitulemos. Quando o fone foi atirado pela janela, sabe dizer se estava co­nectado na tomada?
– Não sei. Eu cheguei depois que ela o jogou.
– Como sabe que foi jogado pela janela?
– Tive esse palpite, quando o encontrei na rua.
– Mas poderia ter sido quebrado dentro de casa e atirado depois pela janela. O que sobrou dele pode ter sido colocado na calçada com cuidado. Concorda?
– E que diferença faz?
– Dentro, tá fora e fora, tá dentro. Lembra?
– Como poderia me esquecer? Quero saber se vão resolver o meu problema.
– Por enquanto estou preenchendo um formulário. Já preenchi os dados básicos. Estou com problemas para preencher o campo “observações”; na falta do campo “parentes próximos”, encaixarei em “observa­ções”. Como vê, somos uma empresa moderna e flexí­vel. Isso me lembra...
– Deixe o campo em branco, por favor. Estamos perdendo tempo.
– Este campo nunca pode ficar em branco. De­monstraria falta de interesse do funcionário. A Com­panhia tem por objetivo a maximização da satis­fação do cliente. Isso só se consegue preenchendo o campo “observações”. Maximizar a satisfação do clien­te nunca foi perda de tempo. Trabalhamos para pro­porcionar qualidade total.
– Está maximizando minha raiva.
– Desculpe, sigo um roteiro aprovado internamente. Não deixarei o campo em branco.
– Então escreva o que quiser. Escreva uns versos de Pessoa.
– Ele é assinante?
– Ele é imortal. Pode ser que seja assinante tam­bém.
– Pode me dar os dados dessa pessoa?
– Não. Eu faltava muito às aulas. Serve Alberto Caeiro?
– Terei de abrir outra ficha. O senhor me deixa numa situação embaraçosa. Tento fazer o máximo para resolver o seu problema e o senhor está dificul­tando. Já colocou o diamante?
– Só se for numa broca dentária.
– Então o senhor é dentista? No nosso banco de dados consta: pugilista.
– Sou um pugilista filósofo sem telefone.
– Nosso tempo está se esgotando. Sua reclamação estará sendo reprocessada. A Companhia lhe deseja um bom-dia e agradece sua preferência.
– Preferiria poder dar uns telefonemas. Com este aparelho será impossível.
– O senhor não possui outro telefone?
– Tenho, sim.
– Então por que não o está usando?
– Não posso.
– Por quê?
– Minha irmã o está usando e ela fala muito. Nem pode imaginar o quanto.
– Qual é o nome de sua irmã? É para colocar no campo “observações”. Além disso, por um diamante menor, podemos proporcionar-lhe uma extensão vir­tual...
Desligou. Não havia motivo algum para ficar irri­tado. Afastou-se do aparelho cantarolando a marcha fúnebre.

*Crônica do livro ´´Apetite Famélico``, Ed. Totalidade

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Talvez não tenha se esquecido ainda da viagem, a respeito da qual escrevi, comentando algumas recordações lisboetas. Pois continuando, aumentarei a gravidade do crime contra as letras, dando prosseguimento a esse relato.

Ao mencionar o incidente C.J. disse que havia um outro episódio menos louvável. Para apreciá-lo, quando eu me decidir a confessá-lo, sem fazer um juízo muito severo, coloque-se por alguns momentos no meio do bando de estudantes formandos. Quase todos sem dinheiro, contando com as diárias oferecidas pela nossa CêVê, (Comissão de Viagens) complementadas por algum reforço proporcionado pelas famílias. Lembro do comentário admirativo: “Pô, o Luís Augusto está levando 300 dólares.” (estamos falando de dezembro 1966, época em que fazia sentido o livro ‘Europa a 5 dólares por dia’).

Como chegamos à Europa? Num possante quadrimotor C54 da FAB, a versão militar do DC4. Poltronas? Nada disso. Apenas os assentos laterais de um avião de pára-quedistas como nos filmes de guerra. Calefação? Deve estar brincando. Mas, a avião cedido não se contam os defeitos, diria meu sábio alter ego, praticamente da mesma idade que eu. E, já que estou lhe escrevendo, não sentirá o pavor que se apoderou de nós ao descobrir a imobilidade de uma das hélices.

Faltava dinheiro; éramos,porém, os donos do mundo. Pode ser que o mundo custasse menos, ou, quem sabe, éramos ricos o suficiente para não ligar para detalhes.

Bem, não é que fomos ao Cassino de Estoril?

Espirito matemático, jogava meus trocados no cara e coroa do vermelho e preto. Para ser mais verdadeiro, preciso dizer que só jogava no vermelho. Aguardava a ocorrência de um preto e logo depois, ignorando – como todo engenheiro, cujo trabalho de graduação relacionara-se com a estatística aplicada – o fato de nada garantir a necessária ocorrência subseqüente de um vermelho, colocava, cheio de confiança, a ficha no ‘encarnado’. Quando perdia, dobrava a parada, sem poder ir além de uma única dobrada, por razões de gestão austera da minha fortuna. Aos poucos fui juntando algo como 50 dólares de lucro. Estava me tornando um milionário. A caprichosa deusa escancarava um sorriso dócil, submisso, encorajador. Nem percebi o tempo voar, fascinado pelo jogo e embalado pelos comentários de um colega menos atrevido, que se limitava a contabilizar meus lucros e perdas. Sem demérito algum, as observações eram tão interessantes quanto aquelas a que nos habituaram nossos locutores esportivos de hoje. ‘Agora vai’, ‘Vamos virar o jogo’, ‘Notou aquela gostosona de azul?’ Como demorava aquele pessoal! Nada a ver com o ritmo endiabrado de Vegas, que vim a conhecer anos mais tarde. Com o saldo positivo da minha particular balança comercial, aquele detalhe não chegava a importunar.

O crupiê anunciou, finalmente, a última rodada. Era chegado o momento do lance magistral. Parado durante algumas rodadas de preto, decidi separar o valor da fortuna inicial mais o valor da corrida de táxi e ‘partir para o tudo ou nada’ com o resto. Não poderia dar errado. Deu. Dizer que deu um inesquecível 26, seria supérfluo. Sim, o 26 é preto, meu caro. Com sono, a Fortuna decidira abandonar-me, sem aviso prévio. Dei adeus ao montão de fichas varridas com implacável zelo pelos profissionais.

Antes de regressar ao glorioso Hotel Atenas, detivemo-nos num pequeno bar, onde fui apresentado ao que me pareceu, naquela época, o néctar surrupiado a Hebe ou a algum substituto de Ganímedes. Gozadores, abstenham-se. Estou falando do capitoso Grandjó, cujo sabor adocicado nos fez esquecer a hora. Precisávamos voltar para dormir ao menos duas horas.

No táxi, junto com mais três colegas, (note, observador implacável – decerto já o notou– que ainda sobejavam, a título de lucro, três quartos do valor da corrida), resolvemos provocar o digno ás do volante.

– Chofer, queremos seu boné.
- Ora, pois, isto é ‘pruibido’. Tenho de usar o boné em s´rviço. –Tudo isso vinha dito com aquele delicioso sotaque, que me obrigou a uma transcrição fonética, para que mergulhe conosco no clima daquela pequena aventura.
- Pelo menos dirija sem boné. Faça essa gentileza.
- Ora, pois, não podemos f´zer isso.
- Chofer, é muita pompa. Seja menos formaL. Diga ao menos um palavrão
- Ora, pois, j´mais falo p´lavrõech!
- Um só! Ao menos um. Com certeza sabe
- Não. De m´neira n´nhuma!

De tanto insistirmos, ele finalmente soltou um sonoro PQP, acolhido por um coro de risadas, até que um de nós conseguiu, fingir uma justa indignação.
- Chofer, perdeu a classe. Que tremenda falta de educação!
- Mas foram os s´nhores que insistiram, pois não? –O retrato pungente da desolação. – Foram necessários longos minutos para explicar ao consternado motorista, ter sido aquilo apenas uma brincadeira, que o palavrão, desastradamente proferido, em nada diminuía a nossa estima e que ele continuava luzindo como estrela de primeira grandeza no firmamento das boas maneiras.

As luzes de Lisboa estavam se aproximando, o sono já reivindicava seus direitos. Nas mãos, o cartão de admissão por um dia no Cassino, doravante inútil. Nessa roleta, ao menos, conseguira descobrir que, se a fortuna sorri aos audaciosos, muitas vezes, o sorriso é banguela.

*Crônica do Livro ´´Sessão da Tarde``, Editora Edicon.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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A estrada se espreguiçava à sua frente com indes­crití­vel monotonia. O carro engolia placidamente quilômetro após quilômetro havia mais de cinco horas. Incomodava era saber que ainda faltava mais da metade da jornada. Uma espécie de torpor apode­rava-se dele. Dirigia automaticamente, sabendo, de experiências passadas, nessa mesma estrada, que logo viria um momento de completo desânimo, típico dessa maratona.

Era quando os reflexos pareciam estar tirando férias, a concentração desertava e a motivação caía vertiginosamente. Sabia também que, uma vez supe­rada essa barreira, que o molestaria por uma hora, o resto da viagem seria tranqüilo. Pagava, de certa forma, um tributo à sua total falta de paciência. Tinha decidido que o maldito trajeto deveria ser com­pletado num só dia. Era algo factível, com toda cer­teza, dentro das suas possibilidades; logo, não iria admitir parar na metade e, após descansar, concluir no dia seguinte.

Selecionou um outro CD. Desta vez era o concerto para violino de Tchaikovsky. Ao som dos primeiros acordes, a sucessão de painéis publicitários que mar­geavam a estrada passou a ganhar nova vida. Pare­ciam render-se ao encanto da música. Os apelos ao consumo haviam deixado de agredi-lo e, submissos, revelavam-se acompanhantes fiéis e discretos.

O primeiro movimento do concerto o havia fasci­nado sempre. O choro do violino lhe passava uma sensação de encanto, e era o que precisava para superar a fadiga. 

A dor de cabeça aproximou-se dele, rastejando como um cachorro amestrado. Foi sendo dominado, sem ter podido opor qualquer resistência. Era uma dor insinuante, monótona, persistente, implacável.
Ao longe, distinguiu um vulto à beira da estrada. Pensou em diminuir a velocidade. Ia acabar levando uma multa originada num desses radares ocultos, que as piscadas de farol dos carros, vindos em sen­tido oposto, não teriam ajudado a burlar. À medida que se aproximava, notou sucessivamente tratar-se de um ser humano, mulher, bonita. As constatações sucessivas, frutos da aproximação, se sucederam a intervalos de pouquíssimos segundos.
Estranho. Muito estranho mesmo. A mulher incrustada na paisagem, num lugar desértico.
Ela estava acenando e, mesmo que não o tivesse feito, a simples presença naquele trecho de estrada já teria justificado uma parada.

Deteve-se no acostamento, ao lado da desconhe­cida. Agora era possível afirmar que considerá-la ape­nas bonita era uma tremenda injustiça com a estra­nha. Ela estava simplesmente iluminando aquele canto perdido do universo. Jeans, camiseta, tênis, um lenço colorido no pescoço e uma bolsa de respeitáveis proporções no chão. Cabelos castanhos curtos emol­durando um rosto angelical. Um largo sorriso fez a dor de cabeça recuar como o cachorro amestrado faria, se o filme fosse projetado de trás para frente com velocidade maior.
– Bom dia, quer uma carona?
– Vou a São Paulo. Pode me levar?
– Levo até o fim do mundo.
– São Paulo será mais do que suficiente.
Ajudou-a a colocar a bolsa no porta-malas. Ela conservou apenas uma bolsinha minúscula. Entra­ram no carro. O concerto estava no seu último movi­mento.
– Adoro este concerto, disse a estranha. Meu nome é Mônica.
– Também adoro. Muito prazer, Francisco.
– Eu sei, eu sei, disse ela e com um sorriso bizarro, apanhou na bolsinha um frasco de perfume, ou algo parecido, e orientou um jato com cheiro estranho em direção ao motorista.

De repente, os traços da Mônica ficaram menos nítidos. Ela mantinha o sorriso, até parecia que esti­vesse gargalhando, embora nenhum som se fizesse ouvir. Um apito agudo, que fazia lembrar o som de uma broca de dentista, não deixava Francisco fechar os olhos e dormir como era seu desejo. Largou a dire­ção, mas, coisa estranha, o carro tinha parado de cor­rer na estrada. Estava envolto numa nuvem de poeira prateada e parecia flutuar. Juntando as suas forças, Francisco tentava em vão articular palavras em dire­ção à passageira misteriosa. Permanecia paralisado, mas o seu desejo não era se mexer e, sim, poder comunicar-se, protestar ou talvez agradecer pelo que estava se passando.

Mesmo sem enxergar com nitidez o rosto, ele se sentia atraído pela visão turva que, naquele momento, parecia reger-lhe o destino. Imóvel, perce­beu que o penteado da Mônica estava se modificando, o cabelo se juntava num coque abrigado por um cha­péu de abas largas. A camiseta cedera lugar a um decote cheio de babados e um lindo colar estava dando voltas no pescoço marfim. No lugar da calça, uma saia longa encobria as pernas escondendo até os tornozelos,

Mas será que aquela roupa provinha da bolsa do porta-malas? Como, se ela nem havia saído do lugar, e aquela roupa parecia ter surgido do nada?
– Cavalheiro, estamos em São Paulo. Gostaria de tomar um chá, isto é se for convidada.
– Onde estamos? E logo se espantou com o fato de subitamente ter recobrado a fala.
– Em São Paulo. Talvez devesse perguntar quando estamos, sorriu Mônica.
– E o meu carro. Olha o que aconteceu com ele!
– Que lindo Studebaker! Bem melhor que o seu, em todo caso, bem mais charmoso. Estamos perto do Viaduto do Chá, caso não reconheça.
De fato, o Teatro Municipal estava lá mas, no lugar de alguns dos prédios que ele conhecia, havia casi­nhas. Recuara uns bons quarenta anos. Iria tomar chá no Mappin. Algo estava errado, pensou. E logo descobriu. Era a roupa dela que seguramente era do início do século. Uma fada anacrônica pensou, igual aos gladiadores de produções descuidadas que, de vez em quando, ostentavam um relógio no pulso.
Adivinhando-lhe o pensamento, ela sorriu:
– É apenas um pretexto para passar umas horas contigo. Minha missão me leva a um passado mais remoto, e nem é para São Paulo que me dirijo. Vou para Paris de 1610, logo depois do assassinato do Henrique IV. Você é apenas uma fração do meu uni­verso. Não tenho nenhuma preocupação de coerência. Além disso, ninguém está nos vendo.
Experimente conversar com alguém. Não lhe res­ponderá. Você é uma sombra, o meu acompanhante, e, enquanto estivermos juntos, nenhum contato com humanos lhe será possível. E vou lhe dizer algo que talvez não lhe agrade, mas uma vez concluído o nosso passeio, não se lembrará de nada. Portanto carpe diem, sabendo que o seu amanhã vai independer deste hoje. E agora, talvez queira ver seus pais ainda crianças?
– Não, senhora Spielberg, já que estamos amarra­dos por uma eternidade cuja extensão só você conhece, quero realizar um sonho pueril. Dançar uma valsa com você em frente ao Municipal e, depois, poder acordar sentindo no rosto as lágrimas que der­ramarei por perdê-la. Pois nunca mais nos veremos, não é verdade?
– Saiba uma coisa. Não existe o verdadeiro nunca. Mesmo nas profundezas abissais do desespero, haverá um talvez. E é com esse talvez que você poderá efetuar qualquer travessia. Aceito seu convite, cavalheiro, em vez de chá, uma valsa. Irei me perder em seus braços.
E, de repente, pelas janelas do Municipal, os acor­des do Danúbio Azul inundaram a praça.
Enlaçou a criatura diáfana e passaram a rodopiar loucamente entre transeuntes que passavam sem vê-los. Experimentou chocar-se com uma senhora em­pertigada e descobriu que ele tinha a consistência de uma sombra. A senhora empertigada o atravessou como se ele fosse uma nuvem. No entanto, sentia o contato enlouquecedor de Mônica, a parceira desta valsa inacreditável.
Estavam rodopiando, a música afastou-se dos compassos imponentes para disparar feito um realejo demente.
Os rodopios aceleraram-se a ponto de sentir nova­mente a mesma sensação que havia experimentado ao ser tocado pelo spray. Os traços de Mônica esta­vam se apagando, tudo havia escurecido em volta deles, e a música estava se transformando numa es­pécie de uivo, parecendo uma sirene de ambulância.
– Cuidado com ele. Mas que porrada! E ainda sobrou algo do carro!
– Será que ele está vivo?
– Veja, está se mexendo!
Não estava mais dançando, mas experimentou uma alegria imensa ao descobrir que podia mexer a mão direita. A que havia segurado a mão de Mônica. No rosto, a lágrima.

*Almanaque Anacrônico e outros contos. Ed. Totalidade.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Sócrates é mortal, qualquer cachorro é

mortal, logo Sócrates é um cachorro.

Isaura e Florisvaldo casaram-se após um breve namoro. Foi uma cerimônia simples, mas muito emocionante, com a indefectível promessa de dedicação de corpo e alma, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, e nas mais diversas situações antitéticas, até que a senhora da foice os separasse. De mãos dadas, enfrentaram a reforma do apartamento, prestações atrasadas, o registro no Clube da Divida Ativa, a execração do SERASA e o choro de criança do filho dos vizinhos, mas pouco tempo depois, graças a um casal de gêmeos, devolveram com sobras os decibéis inoportunos.

Cupido fizera um trabalho admirável. É isso que dá usar flechas de qualidade superior. Nada parecia poder turvar a harmonia do casal. Porém, por melhor que fosse a obra de Eros, o máximo que conseguiu foi o selo de eterno enquanto durasse, como alguém já disse agitando um copo de uísque. Eis que, os germes da dúvida começaram, aos poucos, a minar a confiança absoluta de Isaura no seu amado. De início, ela afastou com legítima indignação as suspeitas que invadiam sua mente, mas para não fugir à regra, uma vez instalada a desconfiança, nada consegue deter a evolução desse processo infeccioso. É preciso dizer que Isaura era uma ciumenta de carteirinha, sem nenhuma anuidade em atraso.

Em homenagem à transparência, não guardou as dúvidas para si e fez parte de suas inquietações ao marido, recebendo um categórico e colérico desmentido. “Como pode imaginar! Nunca, jamais, em hipótese alguma...”. Como essa manifestação enérgica fora insuficiente para aplacar a desconfiança, Florisvaldo teve uma idéia, afinal de alguma coisa deveria servir sua sólida formação em Direito. De comum acordo, celebraram um contrato informal, que poderia ser resumido assim: Havendo traição, o casamento seria desmanchado, sem direito a apelação. Da mesma forma, a prática da mentira, levaria a idêntico resultado. Por outro lado, a fidelidade e a verdade teriam como prêmio a perpetuação do himeneu, até a ocorrência de uma das falhas listadas anteriormente. Houve algumas discussões de pouca importância – resumidas nas famosas cláusulas que costumam figurar em letras miúdas nos contratos de adesão. Por exemplo, frases do tipo: “Stalin morreu em 1953” ou “Machado de Assis escreveu O alienista”, por mais verdadeiras que fossem, por retratar fatos de domínio público, seriam inócuas, sem poder garantir a fortaleza do casamento. A recíproca valia também. Mentiras inocentes do gênero: “Diga a sua mãe que hoje iremos ao teatro” ou “Meu filho, se você for bom aluno, garantirá um futuro brilhante” não seriam objeto de penalidade. Isaura concordou com a proposta, mas nem por isso deixou de lado a desconfiança, lançando de supetão perguntas embaraçosas, fazendo deduções em voz alta, indo até procurar evidências incriminatórias nos bolsos do ser querido. Todas as artimanhas foram inúteis. Nem por um instante lhe ocorreu que o capítulo ciúme não cabe no livro da Lógica, sua leitura predileta. Até que um belo dia, na hora do jantar, Florisvaldo declarou:

-Tenho um caso, querida. Poderia passar-me o sal?
A frase caiu como uma bomba, cujo efeito imediato foi comprometer os sólidos alicerces da união. Mal conseguindo esconder as lágrimas, Isaura saiu correndo, atirou-se sobre o, leito conjugal e depois de empapar seu travesseiro, passou a refletir. Se, de fato, ele tivera uma aventura, significaria o fim do casamento, cujas fundações pareciam definitivamente comprometidas. No entanto, o fato de ele ter dito a verdade, implicava na continuidade da relação. Trato é trato e deve ser cumprido. Pacta sunt servanda – de acordo com Florisvaldo e com o dicionário de citações latinas. Não contente com essa conclusão, Isaura aprofundou a análise. E se Florisvaldo mentira? A peta significaria, igualmente, o fim do matrimônio. Kaputt! Mas se o tal caso fosse apenas uma invenção, Florisvaldo continuara sendo fiel, o que de imediato, dava vida perene à união deles. Isaura percebeu que fora presa numa armadilha lógica e não vislumbrou nenhuma saída. Voltou à mesa, incapaz de fazer qualquer tipo de pergunta e o jantar transcorreu num silêncio sepulcral, na expressão de premiadíssimos autores. Num esforço supremo, Isaura decidiu não fazer qualquer tipo de perguntas. Seguiram-se dias de reflexão, animados como a marcha fúnebre de Chopin. Isaura continuava à procura de uma solução. Enquanto isso, Florisvaldo saboreava seu triunfo e o término do terrorismo conjugal.

Qual não foi seu espanto, quando, alguns dias depois, na hora do jantar, antes do Jornal Nacional, durante uma insuportável inserção eleitoral gratuita, Isaura emitiu com doçura:
- Querido, tenho um caso. Poderia me passar o pão?

*Crônica do livro ´A luta continua`, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Somos - sem exceção – humildes atores ensaiando uma peça cujo final nos é totalmente desconhecidos. Ainda bem. Estou de volta depois da minha 21ª maratona de Nova Iorque. Mesmo sem saber o que nos espera prefiro referir-me a essa prova como sendo a mais recente. Falar em última seria carregar nas tintas do pessimismo, mesmo porque o final da peça à qual me referi acima não me foi revelado.

A corrida em si foi, como sempre, aquele evento maravilhoso. Mesmo sendo minha 61ª maratona – considerando meu currículo inteiro - a emoção se fez presente. Como não pretendo falar na corrida, direi que meu desempenho não foi dos melhores e poderei alinhar uma série de “circunstâncias extenuantes” para justificar o resultado: um joelho avariado (apesar de ter sido operado por um dos papas do joelho), um estiramento na coxa da outra perna, o que me fez mancar das duas pernas, e uma gripe com a qual fui contemplado na antevéspera da prova, com direito a presença de médico etc. e tal.
Enfim.

Nada como viajar, rever lugares conhecidos e arriscar incursões em novos espaços. Mas para tanto é preciso chegar lá. E para chegar precisa ensaiar alguns passos do samba do crioulo doido – se é que a tribo do politicamente correto me permite assim dizer. Para acalmar censores implacáveis retiro o crioulo doido e o substituo por afrodescendente com problemas neurológicos. Pronto.

Confesso que devido às vendas espetaculares dos meus livros, viajei em classe executiva, affaires, business class, ou dito de outra maneira, em classe antieconômica - mesmo com o risco de levar a pecha de fomentador da luta de classes, conceito grouchomarxista que não me seduz.

Pois bem. Com o crescente rigor, presente em todos os aeroportos, para embarcar é preciso passar por um controle severo. No moderníssimo aeroporto de Guarulhos, apinhado de gente, mesmo sem estar em plena Copa do Mundo – já sei, estamos nos preparando e tudo corre de acordo com o cronograma – foi preciso enfrentar uma fila para o controle de passaportes e passar pela intransigente inspeção de bagagens de mão. Macaco velho – ou seria mais adequado dizer primata provecto?- não estava carregando nenhum objeto que pudesse ser usado para seqüestrar a aeronave. Nada de cortador de unhas, frascos contendo mais de 100ml de qualquer substância líquida, enfim, nada...

De forma algo paradoxal, descobri, pouco depois, que os talheres usados para as refeições a bordo eram de metal. Nada de passar um temível cortador de unhas, em compensação, facas de corte afiado, com as quais poderia... Vá entender!

Conforme prometi, nada direi a respeito daquelas intermináveis 26 milhas e algum quebrados, salvo a inevitável e obrigatória menção ao ambiente festivo que envolve a Big Apple durante o grande dia.
A volta foi ainda mais engraçada, já que as medidas de segurança no JFK são ainda mais drásticas – claro que depois os talheres são os mesmos.
Por um motivo que não conseguiria explicar resolvi embarcar usando meu monitor de freqüência cardíaca, cuja marca não declinarei, uma vez que a Polar não remuneraria esse tipo de merchandizing. Os leitores do meu imortal Um triângulo de bermudas, bem como todo atleta de fim de semana, sabem que se trata de um relógio incrementado e uma faixa colocada sobre o peito que permite monitorar os batimentos do coração.
Tive de, a semelhança do então embaixador Celso Lafer, tirar os sapatos e o cinto e passar por uma engenhoca que ‘scaneou’ meu corpo cansado, bem como as vestes autorizadas. Retirar e recolocar os sapatos são atos que requerem um certo equilíbrio ou na falta deste uma cadeira. Maratonista dispensa cadeira. Dediquei um pensamento enternecido ao NOSSOEXPRESIDENTE ( se o Canard Enchainé continua a se referir a De Gaulle como Mongénéral, por que não Nossoex? Não me canso de repetir) que desde sempre se insurgiu contra esse procedimento, proferindo a inesquecível frase: “Ministro meu não tira os sapatos”. Não sendo ministro, cumpri docilmente a exigência. Um alarme soou.
Eis que um empregado da TSA – Transportation Security Administration – aproximou-se de mim, e polidamente pediu para me apalpar. Se o gesto poderia ser classificado de assedio ou não, fica a critério do leitor. Em seguida, decretou. “ O senhor está usando um dispositivo no peito”. Disse-o num português rudimentar – isso porque, para me dar ampla oportunidade de defesa, os inspetores haviam. Após analisar meu passaporte, escalado um funcionário capaz de se expressar no português tosco, ao qual já aludi - mas à la guerre, comme à la guerre. Pensei que ele se referia à medalha. “Não, é um dispositivo”. Retruquei tratar-se de um sensor, o que em nada o acalmou. Levantei a camisa, para mostrar do que se tratava, gesto pelo qual fui imediatamente repreendido pela ‘otoridade’. Percebi o quanto essa forma impensada de agir poderia ter ferido o pudor anglo-saxão, que tolera o Pato Donald sem calças, mas é avesso à visão ainda que parcial de um busto masculino, mas já era tarde. Dezenas de retinas já haviam sido ofendidas. Mesmo assim, o fiador da segurança aeroportuária parecia alimentar dúvidas. Provavelmente passou-lhe pela cabeça que estaria eu interessado nas 72 virgens prometidas aos mártires que andam se explodindo, e insistiu num tom pouco amistoso que não admitia alternativa a não ser uma explicação abrangente: “para que serve isso?“. Fato sabido: a propensão a criar “enrosco” é inversamente proporcional ao grau hierárquico de qualquer funcionário.
Foi quando me lembrei de um filme maravilhoso: Amici miei, no qual por diversas vezes o inesquecível Ugo Tognazzi, quando confrontado com um interlocutor incômodo, saia-se com uma frase delirante. Algo assim: “Supercazzola prematurata a la seconda com scapelamento a destra”, tudo dito com uma velocidade de fazer inveja a um tarimbado locutor esportivo.
Imediatamente recitei o mais rápido que pude: “Sofro de variações da freqüência cardíaca que eventualmente pode alcançar níveis considerados perigosos e ao detectar tal fato tomo de imediato um betabloqueador”.
Funcionou. Fui liberado e tive, finalmente, direito aos talheres de metal que em nada comprometem a segurança das aeronaves, diferentemente dos perigosíssimos cortadores da lâmina dura, formada de queratina, que recobre a última falange dos dedos das mãos e dos pés – segundo impecável definição do Houaiss.

Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Com certeza, essa data pode passar despercebida para muitos. Não é o caso dos que aniversariam, ou que tem algo a festejar nesse dia: ter encontrado o verdadeiro amor, ter passado no vestibular, ter adquirido um novo tapete - debaixo do qual há sempre tanto para se esconder - ou ter finalmente encontrado a chave do carro. São fatos que podem ocorrer dia 21 de dezembro, marcando a data, ou em outro dia qualquer. Tudo acontece nesse nosso “reino animal” do qual usurpamos a coroa. Por coroa entendo, é bom que se diga, aquele adorno metálico usado por majestáticas criaturas - o diadema - e não aquela boazuda que habita as anedotas mais ou menos divertidas. Usurpar coroa é, potencialmente, um tema capaz de adquirir tamanho enciclopédico.

Não pretendo em tão diminuto espaço resumir a biografia de um indivíduo afetado, de maneira irremediável, por agudo nanismo moral. Refiro-me a Stalin. Posso dar apenas meu testemunho de ter sido enorme a lavagem cerebral aplicada na Romênia, em tudo que dizia respeito a esse “farol do pensamento marxista”, “pai das crianças do mundo”. Dotes sexuais à parte, é provável que a metáfora tenha algo a ver com o estranho acasalamento no qual o papel de fêmeas coube às nações subjugadas pelo “farol dos povos”, cujo nome era citado no hino nacional da União Soviética.

Stalin nasceu em Gori na Geórgia , dia 21 de dezembro de 1879, quarto filho de um casal pobre. Os três primeiros não sobreviveram, mas, caprichosamente, quis o destino que Iossif Vissarionovitch Djugashvilli sobrevivesse até 5 de março de 1953, dia de luto, durante o qual as rádios soviéticas e dos países satélites trocaram suas programações pela irradiação de músicas fúnebres. Descrever a aflição oficial demandaria um esforço muito superior à minha capacidade. Como imaginar que aquele ser maravilhoso pudesse ter deixado órfã a humanidade progressista?

Filho de sapateiro, ingressou, por mérito, no seminário teológico de Tiflis, sendo de lá expulso por causa das suas leituras proibidas. Segundo seus áulicos, ele estava se abeberando nas puras fontes do marxismo.

A seguir, filiou-se ao Partido Social Democrático Trabalhista do qual fazia parte Lênin. Quando o partido rachou ideologicamente, seguiu Lênin, junto com Zinoviev, Kamenev e Nadejda Krupskaia - futura esposa de Lênin. Essa facção recebeu o nome de Bolchevique. Os demais formaram o grupo Menchevique, no qual figurava, entre outros, Plehanov. Meus precários conhecimentos de russo levam-me a associar a palavra Bolchevique a “maior”, do russo Bolshoi-grande. Se non è vero... peço desculpas.
Depois de várias peripécias, pontuadas por diversas prisões, torna-se editor do jornal Pravda. Ironicamente, Pravda significa verdade em russo. Por décadas, representou a verdade única, à disposição de milhões.

Depois da Revolução russa, decorrida em dois tempos - o primeiro a derrubada do czar Nicolau II e estabelecimento de um governo provisório chefiado por Kerenski, e o segundo a derrubada de Kerenski pelos Bolcheviques, com a tomada do palácio de Inverno ao som das salvas de canhão do encouraçado Aurora (errou quem falou Potemkin), Lênin conclamou os operários a assumir as fábricas e os camponeses a pegar as terras dos latifundiários.-‘sounds familiar’ soa familiar? O slogan era “paz, terra, pão”.

Em reconhecimento pela sua participação, Stalin ascendeu ao posto de Comissário das nacionalidades: ucraniana, bielo-russa, georgiana etc. Novos estados nasceram, inicialmente brindados com a autodeterminação. Foi um sonho que se desmanchou rapidamente. A autodeterminação valeria para quem aderisse aos Bolcheviques. Por falta de alternativa, foi o que ocorreu.

A guerra civil irrompeu, e o exército branco, o dos “reaças”, foi derrotado pelo exército vermelho na batalha de Tsaritsin (depois Stalingrado, depois Volgogrado). Naquela época Stalin participou de reuniões com administradores locais numa balsa no rio Volga. Aqueles que não inspiravam confiança eram sumariamente fuzilados e atirados ao rio. Simples assim.

A guerra civil arruinou o país, apesar de haver saído da primeira guerra Mundial através do tratado de Brest-Litovsk. Lênin lançou a Nova Política Econômica. As pequenas propriedades agrícolas voltam a ser permitidas, sendo geridas por proprietários –os Kulaks - que aos poucos aumentam suas posses; pequenas fábricas são privatizadas, sendo devolvidas aos antigos proprietários.

Em 1918 Lênin sofre um atentado, levando dois tiros de Dora Kaplan. Sua saúde declina e a preocupação com a designação do sucessor aumenta. Os competidores são afastados, sobrando Stalin. A polícia secreta “Tcheca” comandada por Dzerzhinsky se desdobra em ações que não levavam muito em conta os chamados “direitos humanos”. Os detalhes da luta nos bastidores fogem ao escopo dessa crônica. Contrariando um testamento de Lênin – que até pedira ajuda a Trotsky para “segurar o rojão” o então Secretário Geral do partido assume o poder. (Trata-se de Stalin, para quem ainda duvida). Para Lênin, conservou-se, para uso nos manuais escolares, o epíteto

“Grande”. O grande Lênin...
Logo depois, Stalin volta-se contra os kulaks, confiscando as propriedades, no mais puro estilo MST, promovendo a criação de Kolkhoses e Sovhozes- fazendas coletivas. Milhares de kulaks foram executados e milhões foram deportados na Sibéria, junto com outros “reacionários”, leia-se :inimigos do regime.
Foram lançados ambiciosos planos quinquenais, com metas audazes, cujo cumprimento iria garantir a defesa da União Soviética das ameaças do mundo capitalista. Nasceu o culto aos cumpridores de metas, o Stakhanovismo - preito à personalidade de um mineiro de Dombass , Stakhanov, é claro. Ser stakhanovista era uma honra. A moda pegou nos países satélites. Na Romênia o torneiro Nicolae Vasu –recompensado com a medalha de Herói do trabalho socialista- notabilizou-se por estar décadas adiantado em relação ao plano de produção. Havia heróis de ambos os sexos. Uma conhecida stakhanovista romena chamava-se Amália Sarközi! (sic).
Em contrapartida - trágica contrapartida – reservava-se um destino inglório aos que não cumpriam as metas. De acordo com a gravidade eram fuzilados , ou, generosamente, enviados à Sibéria.

Era comum o bordão: Iremos realizar o plano qüinqüenal em quatro anos. Seria a afirmação do “verdadeiro homem soviético”, não a confissão de um erro do planejamento centralizado. Os “verdadeiros homens soviéticos” fariam com que a União Soviética ultrapassasse os Estados Unidos. Havia até data marcada, sistematicamente adiada. E para se chegar ao estágio de verdadeiro homem soviético, era fundamental começar como verdadeira criança soviética – um pioneiro. Paradigma conhecido foi Pavlik Morozov – há quem diga que se tratava de invenção da NKVD, antecessora da KGB. O que fez essa criança, condecorada como Herói da União Soviética a título póstumo? Delatou seus pais. O fato ou o mito foi um incentivo à delação. Os pioneiros cantavam hinos de glória a Stalin. Suas gravatas eram vermelhas por terem se embebido (simbolicamente) no sangue vertido pelos heróis da classe operária. Como curiosidade a gravata dos pioneiros da Alemanha Oriental era azul. Noblesse oblige?
No meio da arrancada, alguns incômodos companheiros de viagem, responsáveis pela ascensão do “paizinho” foram descartados: Bukharin, Zinoviev, Kamenev, Bukharin e Yagoda foram executados. Trotsky morreu no México, convenientemente assassinado, por uma agente stalinista - Ramón Mercader; chefes do Exército Vermelho, juntamente com uns 30.000 oficiais e soldados pereceram , vítimas do expurgo. A lista é muito longa e enumerar figurões caídos em desgraça seria pouco producente. Logo depois, estamos em 1937, Béria é nomeado chefe da polícia secreta e o rol das vítimas aumenta. Até que chegou a vez de Béria, depois do desaparecimento de Stalin. Dizem que Béria chamava Stalin de “Lênin do Caucaso”, puxar o saco fazia parte do jogo. Os discursos oficiais e os manuais escolares enalteciam os grandes pensadores: Marx, Engels, Lênin e Stalin.

A Segunda Guerra Mundial estava se aproximando. Durante a guerra civil espanhola Stalin enviou conselheiros e armas para auxiliar a Frente Popular. Para tentar adiar o conflito com a Alemanha, que já se mostrava inevitável, Stalin articulou discussões entre Molotov e von Ribbentropp. Assim mesmo, a guerra eclodiu. Um dos momentos épicos foi a derrota que o exército alemão chefiado por von Paulus sofreu em Stalingrado. Naturalmente, os méritos pela derrota do Reich foi atribuída a Stalin, pelo menos nos manuais de História romenos – disso tenho certeza.

Dissipada a fumaça , nasceu a Cortina de ferro – metáfora que devemos a Churchill. Do lado errado da mesma estava a Romênia, em conseqüência da conferência de Yalta. Durante essa conferência Stalin prometeu a Churchill e Roosevelt a realização de eleições livres nos países libertados do jugo invasor alemão. Prometeu...Como dizem os franceses: promettre c´est noble , tenir c´est bourgeois – prometer é nobre, cumprir é burguês. Sem menor sombra de dúvida, Stalin de burguês não tinha nada.
Seguiram-se anos, durante os quais o culto da personalidade de Stalin atingiu níveis que beiravam a histeria. Na Romênia – país que me viu nascer - a cidade de Brasov foi rebatizada de Cidade de Stalin. Abundavam avenidas, parques, estátuas do “melhor amigo das crianças”. Também houve cidades Stalin na Hungria, Albânia, Ucrãnia, Polônia etc. A enumeração seria tediosa...

Durante os desfiles de 7 de novembro comemorativos da “Grande revolução socialista de ... outubro”, escandíamos : “Stalin e o povo russo nos trouxeram a liberdade”.
Três anos depois da morte de Stalin, no XX congresso do PCUS, Hruschov desmascarou os abusos do “culto da personalidade” o que levou a uma fúria demolidora de monumentos erigidos em honra ao “paizinho”, bem como à remoção dos seus restos mortais do mausoléu da Praça Vermelha, sem falar nas cidades, parques, praças e avenidas que recuperaram o antigo nome.
Stalin se foi. Cabe à História julgá-lo. Cabe a todos manter viva a lembrança do que foi o terror por ele implantado, e que povoa uma ou outra mente totalitária, aqui e alhures.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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O debate acerca dos planos econômicos e suas consequências sobre poupadores (e por que só sobre os poupadores?) merece um tratamento lógico, sem o foguetório improdutivo da discurseira destinada a granjear popularidade. Um esquema do tipo ‘arvore de decisão’ seria um providencial fio de Ariadne em busca da saída desse labirinto. Primeira pergunta: Os planos econômicos – deixando de lado o fato de terem sido gestados em situações de desespero – feriram a Constituição? Vamos deixar de lado também o fato que o plano Bresser foi emitido antes de a Constituição de 88 ter sido promulgada. Não feriram. Então não há mais o que discutir. Próximo assunto, pois há centenas de processos a serem julgados. Feriram, sim. Então, vamos determinar quem foi prejudicado e quem se beneficiou. Houve prejudicados e beneficiados, sim ou não? Não houve. Caso encerrado. Houve, sim. Caberá recomposição dos valores? Sim ou não. Não. Vamos ao cinema. Sim, é preciso retroceder. Finalmente se houve prejuízos e lucros a quem caberá pagar a conta? Mal nenhum faria, caso a discussão siga esse caminho, começar a falar em números. Como no quadro cômico do Jô Soares – nos tempos em que ele era mais engraçado do que hoje –, imitando o então ministro Delfim: “Meu negócio são números”. Parece simplória a decisão de pendurar a conta no pescoço dos bancos que nada mais fizeram a não ser respeitar decisões vindas “de cima”. Seria apenas um subproduto da cultura que demoniza as instituições financeiras. Continuemos. De quanto estamos falando, afinal? É preciso definir, ou basta bater o martelo e contar mais tarde mortos e feridos? Iniciar-se-ia uma discussão, para a qual, com todo o respeito, os magistrados da mais alta corte, não possuem competência técnica. Podem decidir se os planos feriram ou não a Constituição, mas determinar valores é outro departamento. No entanto terão que fixar com precisão, para operacionalizar essa eventual sentença, porque lavar as mãos não parece muito sério. Ficarão se debatendo entre pareceres que afirmam que os bancos ganharam em valores de hoje estratosféricos 230 bilhões de reais e outros que afirmam que não houve ganho algum. E esses pareceres não são fruto de pura “achologia”, embora as diferenças sejam escandalosamente grandes e não estejam desprovidos de viés ideológico e/ou erros mais ou menos involuntários. Frases como a do eminente ministro Lewandowski, que aparentemente está dotado da resposta às perguntas anteriores: “Caberá aos bancos, que já ganharam muito dinheiro”, tipificam prejulgamento e desmoralizam o processo. Ser dono de tal convicção antes de uma profunda análise, no mínimo o tornaria impedido.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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“Quem domina o presente reescreve a História.”

Segundo Colbert, arrecadar impostos é como depenar gansos, tentar obter o máximo com um mínimo de gritaria das aves. Quando se pensa em gansos, não há tantos problemas.

Depois de míseros 12 anos o STF decidiu que houve inconstitucionalidades nas leis que alteraram o índice de correção monetária dos balanços das empresas. Então, as medidas impostas às empresas há mais de 20 anos (1989) deixam de ser válidas. Não é o caso de discutir a decisão da mais alta corte. Surge a pergunta: E agora?

De imediato, nota-se que em função da decisão, aparecerão contas salgadas e a inevitável pergunta: Quem as pagará?
De um lado, empresas capitalizadas tiveram, por força das imposições, hoje “promovidas” a inconstitucionais, de corrigir os balanços com índices inferiores à inflação calculada pelo IBGE. Como o saldo dessas operações resultará agora em uma despesa maior, com a consequente redução dos lucros tributados na época, é possível e é justo que diversas empresas procurem seus direitos na Justiça, com a alegação pertinente de ter recolhido IR e CSLL a maior, sem contar que a distorção, ou a correção desta se estenderia ao longo do tempo, até o advento do Plano Real que, na tentativa de desindexar ao menos parcialmente a economia, passou a ignorar a correção – até que algum revoltado, a hipótese é delirante mas não impossível, venha a questionar a constitucionalidade do Plano Real.

Há o outro lado da moeda. As empresas que apresentaram o chamado saldo credor da correção monetária se verão, de repente, na situação de não ter recolhido IR e CSLL no montante devido, com a nova determinação. A menos que a União dê mostra de uma total, inesperada e improvável inapetência arrecadatória, haja cobranças, quem sabe mais um Refis.
E depois de uma longa hibernação, é possível, caso o STF assim determine, que os detentores de cadernetas de poupança possam reivindicar valores, que em função de diversos planos governamentais não lhes foram creditados. Resta saber, como se operacionalizaria tal ressarcimento. A quem deverá ser apresentada a conta, caso as eminências togadas declarem insuficientes os índices aplicados na salada de Planos fracassados.

A voz corrente é que a conta, se houver, deverá ser apresentada aos bancos. No entanto há objeções pertinentes. Os bancos públicos e privados não aplicaram índices menores para, a sorrelfa, e por pura perversidade, prejudicar pequenos, médios e grandes poupadores. Cumpriram leis e determinações cuja constitucionalidade passa a ser rediscutida. Vale lembrar que o mesmo índice que prejudicou os poupadores beneficiou os mutuários de determinados planos de aquisição da casa própria pelo Sistema Financeiro de Habitação. Proprietários de imóveis já quitados poderão, se ainda em vida, se ver ante novas cobranças, ou isso dará origem a uma nova versão do FCVS, potencial esqueleto para os armários da União? Isso sem contar que muitos desses mutuários na tentativa de recuperar perdas na caderneta, poderão ter a surpresa de descobrir que, na realidade estão devendo. É fácil imaginar a confusão. Fulano de Tal possuía uma caderneta de poupança nos bancos A e B e financiamento no banco C. Haja levantamentos.

Continuando no terreno das hipóteses, já que nada foi – ainda – decidido, a conta teria grandes chances de ser apresentada ao mandante das operações, ou seja, o Governo. No caso dos bancos públicos isso parece inevitável, já que, para honrar a conta, haveria a necessidade de capitalizá-los, com injeções de dinheiro do nosso incansável Tesouro – leia-se de todos nós. Aos bancos privados restará a alternativa de encaminhar a conta, por exemplo, ao BC, cujas determinações foram seguidas, naqueles dias de inflação destrambelhada. Afirmar que as instituições financeiras ganharam com essa correção incorreta merece uma reflexão, já que os depósitos em caderneta serviram para o financiamento habitacional, cujas correções de uma forma ou de outra seguiram a lei. Ganhos de um lado perdas do outro.

As consequências das decisões do STF são de impossível quantificação e a operacionalização possui aspectos políticos de inimaginável complexidade. A não ser que se procure um bode expiatório para a confusão. Diz um provérbio da região de Provence: ”Quando as cabras dão leite, não é preciso procurar bodes... expiatórios”. O problema se agrava quando se procura substituir as cabras por pedras na tentativa de se extrair leite.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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É impressionante a vocação para comentarista político que nos aflige. O mais engraçado é que (quase) tudo já foi dito de forma, pelo menos tão percuciente, há muito tempo. Pensando nisso, reuni dois personagens que não foram contemporâneos, mas cujo ácido espírito de observação os mantém de certa maneira unidos, além de permanentemente atuais.

Georges Clemenceau foi (1841-1929) foi um estadista, jornalista e médico francês. Autor de tiradas brilhantes e irreverentes, a ele se deve a queda de seis governos e a demissão de um presidente da república. Por essa razão ganhou o apelido “O tigre”.
Mal sabia o quanto seus bordões se aplicam nessas plagas, e alhures.
Alguns exemplos:

"A França é um país extremamente fértil: plantam-se funcionários públicos e nascem impostos". - Só a França, é claro, desfrutava desse privilégio.
Alguns dos seus dizeres são recados diretos aos nossos políticos. Àqueles que "incham a máquina administrativa" por achar o Estado raquítico:
"Os funcionários públicos (sempre na França, certo?) são os maridos ideais; Chegam em casa descansados e já leram o jornal". Não é o caso de entrar na polêmica do Estado mínimo, mesmo se por aqui já se fala tanto na necessidade de se ter um estado forte.

Aos frequentadores da altura dos muros de onde não se atrevem a descer, àqueles pássaros de bico avantajado:
"É preciso saber o que se quer, uma vez sabido, é preciso ter coragem de dizê-lo, uma vez dito, é preciso ter energia para fazê-lo”. Definir de uma vez por todas. Parece simples...

Não é preciso concordar com todas as afirmações, mas quem se atreve a rejeitar de pronto essa frase?; “A vida me ensinou que há duas coisas que podemos dispensar: a Presidência da República e a próstata”. No máximo, haveremos de admitir que há um certo exagero, a próstata não é inútil, já a sua hiperplasia...
As campanhas eleitorais mereciam sarcasmos. (Estamos, nunca é demais lembrar, falando da França)
“Nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante a guerra e depois da caça”. Poderia ter dito “depois de uma pescaria” se estivesse na presença de um Ministro da Pesca.

Para minar um pouco as ambições políticas, “O Tigre” disse: “Em política, sucedemos a imbecis e somos substituídos por incapazes.”. É uma faca de dois gumes, melhor não utilizá-la, ou se optar por empregá-la, que seja com extremo cuidado. A chance de ser processado por injúria, difamação ou...revelação de segredos de Estado é enorme.

Como se previsse a situação em algumas democracias, paparicadas pela nossa diplomacia, ele dizia:
“Uma ditadura é o regime no qual não é preciso ficar a noite inteira pregado no rádio (sorry, era o que havia na época) para saber o resultado das eleições.”
Muito antes de se falar em “herança maldita”, Clemenceau dizia: “Todos podem cometer erros e imputá-los a outros: isso é fazer política”. É preciso reconhecer que o passar dos anos não foi em vão. O termo “herança maldita”, especialmente quando utilizado por herdeiros desastrados, pode ser equiparado a uma indulgência papal, uma absolvição antecipada para falhas eventuais. Como aqui não há falhas visíveis, o termo entrou em desuso – por enquanto.
Para os políticos sem moral – da França, porque aqui não os há - “A honra é como a virgindade, só serve uma vez”. Possivelmente, sua intenção era dizer: “Só se perde uma vez”, se bem que, basta renunciar ao mandato e voltar triunfalmente reeleito – nos braços do povo -, isso que é democracia! O conceito de democracia de Clemenceau era bem polêmico :”Democracia é o poder, dado aos piolhos, de comer leões”. Os piolhos agradecem!
Com certeza, algumas tiradas precisam de um aggiornamento. Por exemplo, a famosíssima: “A guerra é um tema grave demais para ser confiado a militares “ poderia ser adaptada de inúmeras maneiras, mas considerando os perfis de muitos escolhidos para “tocar” assuntos relevantes, é provável que surja a pergunta: “E a quem confiá-los?”, ou pior.

Um salto no tempo nos leva a Coluche (1944-1986), um cômico que em determinado momento chegou a ser cogitado para candidato à Presidência da França. Ah, esses franceses!
Segundo Coluche, o mais difícil para um político é ter suficiente memória para se lembrar do que não deve dizer. É possível acrescentar que a memória deve ser suficiente para não cair em contradição.
É imprescindível arrumar direito a papelada - ensina Coluche - para que não se torne público, antes do tempo, o que se pretende fazer. Se der zebra, alegar total desconhecimento - afinal tratava-se apenas de um plano de governo. Diante de eventual repercussão negativa, definir um aspone qualquer como responsável pelo erro e demiti-lo imediatamente é a solução.
Grande Coluche! Mesmo sem jamais ter ouvido falar no PNDH3 ele dizia:
"As ditaduras sabiam fazer-vos falar, os políticos sabem como calar-vos" – tudo em nome da liberdade de expressão e da regulamentação da mídia que precisa ser “orientada, fiscalizada e controlada”, ou numa só palavra: democratizada.
Dele também essa outra pérola - aplicável somente na França, evidentemente.
"Meu pai era funcionário público, minha mãe tampouco trabalhava".
Para os funcionários públicos - não todos, apenas com alto QI - quem indicou, na França, naturalmente.:
“Não se deve dormir de manhã no escritório sob pena de não ter nada que fazer de tarde".
Tudo muda e mesmo assim, independentemente da latitude, permanece válido. Vejam isso:
"Quem se debruça sobre o passado corre o risco de cair no esquecimento" - Essa mania de comparar governos passados pode dar nisso? Veremos.
Sem conhecer as propostas do PV, Coluche foi implacável.
"Para que um ecologista seja eleito, basta que as árvores votem".
Na França, e somente lá, era possível retratar um político sendo entrevistado;
" É só perguntar algo. Como não saberá responder, passa-se à pergunta seguinte".
Mesmo porque:
"De todos que não têm nada a dizer, os mais agradáveis são aqueles que permanecem calados". É a arte de permanecer calado, amparado por um direito constitucional. País estranho a França!
Para não abusar da paciência do leitor, aí vai a definição do político - francês, desnecessário frisar :
"É aquele que se apropria de algo que alguém não tenha ainda perdido". Essa citação prescinde de comentários, salvo o fato de fazer as honrosas ressalvas de praxe.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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