NATAL PRESS

Não sinto a menor simpatia – para usar um eufemismo ­– para os envolvidos na Lava Jato.
 
Para minha tristeza, não vejo como poderão ser pegos.
 
Em primeiro lugar rebaterão com indignação todas as acusações, frutos da direita reacionária e de da mídia golpista a ela subordinada.

Em segundo lugar, tomemos um deles. O Exmo X.

Alma impoluta, desejava apenas ser competitivo nas eleições. Sem dinheiro para financiar aqueles vídeos imbecis para os quais não conseguiu aprovação de projeto da lei Rouanet. –Aqueles vídeos são arte pura, ou não? O que fazer? Soube o Exmo. X da existência de um senhor Sérgio Machado, presidente de uma subsidiária da Petrobrás (não vamos ser antipáticos e aludir à Presidente do Conselho de Administração – o petróleo é nosso e somos autossuficientes). Pois esse S.M consegue persuadir Oderbrechts e outras Engevix a financiar campanhas eleitorais. Pronto, basta pedir. Ele entrega a grana ao comitê eleitoral, à tia do político, pouco importa. Esse dinheiro será registrado no tribunal Eleitoral. Por sua vez o Tribunal não possui faro para identificar grana suja. Vespasiano já dizia. Pecunia non olet. A grana não tem cheiro.
 
Pois então. Exmo X sai assobiando. Está tudo dominado. Por qual razão as empreiteiras irrigam contas oficiais e outras nem tanto Exmo. X não sabe e tem raiva de quem sabe.
 
Na sua ingênua visão do mundo Exmo X fica constrangido em recusar alguns depósitos em paraísos fiscais... ele é apenas um stranger in the Paradise... fiscal, tudo bem.

Diante da delação de empreiteiras pegas de calças curtas – moda em voga no Tirol – Exmo. X reage com indignação. Ele não sabia. “Mostrem-me onde assinei recibo de propina”.

Caixa 2? O que vem a ser isso?
 
Vêm uns cretinos arrependidos e confessam superfaturamento de obras públicas? Isso não é comigo. Trata-se de aditivos de contratos prevendo reajustes devido à inflação, aos dissídios da mão de obra, a exigências de ambientalistas, mas está tudo contabilizado. Exmo. X manifesta sua indignação ante esses juízes que exigem delação de presos. Que absurdo! Essas delações não passam de manifestações de alergia de indivíduos claustrofóbicos que não se ambientam em celas. Aversão ao xilindró, nada mais.  Por que estão lá? Problema deles.

Coroando essas manifestações, Exmo X declara que está à disposição da Justiça, como se houvesse alternativas! Mais ainda, abre mão do seu sigilo, fiscal, telefônico, bancário etc, como se pudesse deixar de fazê-lo caso um juiz assim determine. E como se essa grana tivesse circulado em contas correntes de bancos em atividade em Pindorama. Vamos nos entender, ninguém possui dinheiro fora dessa terra onde cantarola o sabiá. Se acharem é de quem achou. Paraísos fiscais? De novo?
 
Ah, sim, alguns gastos incompatíveis com as remunerações? Exmo X sempre foi um exímio poupador e realizou negócios bem-sucedidos, incluindo, mas não limitados a ganhos na Loteria, vendas de gado, heranças de tios distantes etc.
 
Eis porque não haverá pizzas, pois a mozarella em excesso favorece o crescimento do colesterol, mas haverá longos e inúteis debates, receio eu.
 
Mas já há alguns condenados, dirão. Alguns já estão atrás das grades. Certo. Mas no fim, haverá apenas uma demanda de tornozeleiras eletônicas – com alto conteúdo nacional, esperemos. Ah sim, Marcos Valério cumprirá décadas na prisão.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´Â  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Celso Fernandes, jornalista, escritor. Colunista de Moda, TV e Literatura. Assessoria de imprensa. Blog:
Follow me: http://twitter.com/celsocolunista  
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Em Cannes, talvez inspirados pela cor do tapete, de frente para a Croisette, artistas brasileiros do elenco do filme Aquarius, protestaram contra o que chamaram – e não são os únicos -  de golpe. Não consta que eles pretendam pedir asilo político para fugir das perseguições, como ocorreria se houvesse um regime ditatorial na pátria amada, salve, salve. Fizeram uso do direito de expressar livremente sua opinião, como poderão fazer ao voltarem ao Brasil. Divulgaram para a clientela dos bares em frente ao Palais des Festivals et des Congrés de Cannes, o retrato daquilo que lhes parece ser uma república de bananas. Se o público deixou de bebericar seus drinques , a imprensa não revelou.

A poeira ainda não baixou. Uma página está prestes a ser virada, mas ainda não o foi. A mulher sapiens reclama. Diz ter sido vítima de um golpe, pois não praticou crime algum, não roubou, não tem conta em paraísos fiscais. Não ter praticado roubos é louvável, mas trata-se apenas de uma condição necessária, para o exercício da Presidência. Quanto aos roubos – até agora não se tem uma ideia exata do rombo - praticados durante seu governo foi omissa, ou não foi competente o suficiente para detectá-los, impedi-los e punir os culpados. Queira ou não a presidente afastada, por mais que insista em posar como mártir, a lenda do "golpe" caminha para a lata de lixo. É absurdo falar em milhões de votos pisoteados, como se expressou o senhor Rui Falcão. Para que um presidente seja afastado, em função de crimes de responsabilidade, precisa primeiro ter sido eleito, e se ganhou as eleições, obviamente, o foi  com milhões de votos. O afastamento, que ainda não ocorreu de forma definitiva, poderá ser imposto por causa da prática de " malfeitos" depois de um ritual discutido e aprovado pelo STF, e transmitido ao vivo. Os que se opuseram ao tal golpe, na concepção da militância petista , da esquerda caviar, e de simpatizantes da presidenta o fizeram livremente, fato que não se verificaria, por exemplo na Venezuela ou Cuba e outras repúblicas bolivarianas. Por sinal, o que é ser bolivariano?

Isso sem falar que boa parte dos milhões de votos antes de serem "pisoteados" foram obtidos vendendo um punhado de mentiras, algumas proferidas na maior cara de pau durante a campanha eleitoral, outras, sustentadas pelas fantasias delituosas, carinhosamente chamadas de pedaladas.
Finalmente, discutir a qualidade dos parlamentares, sem a ironia condescendente de um New York Times, é apenas constatar o óbvio: eles são apenas aquilo que as urnas pariram. Fazer o quê? Seguir o chiste de Berthold Brecht e demitir o povo? Sem abusar do latinório, vale repetir: semelhante cura semelhante ou, como diria Lula: similia similibus curantur.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´Â  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..


Celso Fernandes, jornalista, escritor. Colunista de Moda, TV e Literatura. Assessoria de imprensa. Blog:
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De tanto ver triunfar as nulidades’, exclamou Ruy Barbosa por volta de 1914, ‘...o homem chega a desanimar da virtude’. Naquela época, como hoje, o desânimo se justificava, dizem. Será? Para quem a tarefa de endireitar o mundo parece excessivamente aborrecida, resta o consolo de entender que o que puder ser salvo o será. Dito de outra maneira: Se estiver confuso, confunda os demais e ganhe tempo. Sobretudo, jamais interpele os impostores. Para quê? A credulidade substitui a contestação; o fraco andará a reboque de conceitos que não entende, sempre disposto a amaldiçoar uma verdade em conflito com a crença que acabaram de lhe instilar. Exigir algo de meros títeres subordinados aos próprios instintos é um pensamento utópico e indigesto, já que a injustiça jamais se limitou a gerar um filho único. Quanto à justiça, ela é cega por definição. Importante é deixar sempre um espaço para um recuo, que permita contemplar o todo hostil com um sorriso, mesmo com o risco de saber que, a qualquer momento, poderá virar um ricto. O segredo, se é que existe, é tocar sempre com a ponta dos dedos, roçar sem o compromisso de aprofundar-se, sem provocar a alergia à verdade daqueles que dela se proclamam donos. Ressaltar o mal que se esconde atrás de argumentos traiçoeiros, é, seguramente, uma armadilha ao nosso comodismo, a ser cuidadosamente evitada.

Visto assim, tudo passa a ser mero objeto de escárnio. Não há mais o risco de tombar empunhando a bandeira de um ideal com seu prazo de validade vencido. Aos que imaginam ser esse um caminho para a superficialidade, para a alienação, termo abusivamente presente em debates acalorados, Pascal retrucaria ser importante ter um pouco de tudo e não tudo de alguma coisa. Não é uma receita de vida nem um convite ao alheamento, e sim uma forma menos tensa de examinar o palco da existência, no qual um detalhe irrelevante pode arruinar o mais ambicioso projeto, um toque inoportuno de celular consegue dissipar a aura de um momento mágico, em que, finalmente, ídolos adquirem essa condição, enquanto iluminados pelo jogo de luzes de um diretor experiente, para se desintegrar quando baixa a cortina. O ‘para sempre’ dura no máximo até o fenecer da inútil paixão.

Indiferente a reflexões desse jaez, a sociedade se encarrega de ignorar a imagem tétrica do relógio sem ponteiros de ‘Morangos silvestres’, soterrada pelo advento de inexpressivos relógios digitais. O diálogo encontrou substituto digno no discurso vazio, sem contestação possível, a arenga insossa do ‘vender o peixe’. Tão compacta é a fala que rege a sociedade, que não há espaço para discussão. Aforismos sem valor, e não vale a pena enumerá-los, passam a governar as mentes. Contestar? Por acaso existe a certeza – e se existe, onde é que ela fixou residência? Deve estar perdida entre a teia de Penélope e o vão esforço de Sísifo, entre o ardil e a sentença.

Levar a sério a realidade? Melhor dirigir-lhe um olhar zombeteiro. Será essa a desforra. A pretexto de estarmos vivendo intensamente determinado momento, não faz sentido afirmar ser um instante mais importante do que outro. Não há mais nada de excepcional, inexistem encruzilhadas históricas, a não ser para nós mesmos. Se houver alguma perspectiva inebriante, bastará um olhar irônico para demolir qualquer arcabouço ou dogma, para bagatelizar ao invés de sofrer por conta de males, cuja cura teima em fugir à sabedoria. O caniço pensante precisa, com urgência, aprender a dar de ombros.

Nossa jornada é apenas o atalho para descobrir, algo tardiamente, a inutilidade de ser sério. Os mais nobres sentimentos abdicam da sua solidão majestática ao chocarem-se com o trivial. Entre sermos inconsoláveis cassandras, ou torcer pelo fracasso das nulidades, manter o sorriso é uma medida de sobrevivência. Saída poética, talvez, já que sem sermos poetas, saberemos ser fingidores. Ante a falta de pudor do político, o sorriso do sábio. Isso não irá mudar algo, mas, se não é a solução, proporcionará pelo menos um agradável fim de semana.
E as nulidades? Bem, quantos têm na ponta da língua o nome de quem derrotou Ruy Barbosa nas urnas? Eis a resposta, ainda que disfarçada de pergunta.

Crônica do livro “Sessão da tarde”, Ed. Edicon
 
Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`  e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

É o próprio das nações esperar um salvador
Seja ele Jesus Cristo ou lulinha paz e amor
Mas o mito se alimenta de proezas e que tais
Que fazer quando o mito vive em notas policiais?
 
Um bordão o acompanha “nunca antes no Brasil”
Já cansou a lenga lenga,  julga o povo imbecil?
No entanto ele organiza em sua volta uma festa
Tem motivo para isso: ele é alma mais honesta
 
Contra ele se levanta a Zelite, os golpistas.
Os burgueses, os banqueiros, fazendeiros e dentistas
Querem derrubar o mito, o gigante, o herói
Ele fica amuado, indignado, com dodói.
 
Há suspeitas, coisa pouca, culpa da oposição
E da mídia subserviente, inimiga da nação
E em meio a tudo isso, verdadeiro bombardeio
Ele já tem a resposta. EU ESTOU DE SACO CHEIO
 
Falam sobre o tal do sítio, o tríplex, o pedalinho
Eles querem dar o golpe, golpe baixo e mesquinho
Mas não há nenhum problema, oh, gentinha mais malvada
Ele é inimputável, ele não sabe de nada.
 
Prometeu que doravante assaria coelhinho
Dá palpites, está louco fazer um comiciozinho
Mas já que de nada sabe, vale a pena perguntar
Vindo do mundo da lua ele pode governar?
 
Inocente ou bandido, há justiça para isso,
Não existe o tal golpe não existe compromisso
De fazer dele um mártir, uma vítima, um santo
Resta só a impostura, o eterno desencanto.
 


Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Certo sítio em Atibaia amanhece alvoroçado

Não é o sítio do Lula, já que ele não tem nada

Mas agora é preciso embalar, mandar de volta

Algumas quinquilharias, evidente, com escolta.

Pois agora, oh , milagre, ou devido a um ardil

Esse pobre retirante, vai para Casa Civil.

Nada pra causar espécie, uma mera circunstância

E apenas uma fuga dessa tal primeira instância.

O futuro é risonho, pois perdendo o prefixo

Nosso ex  irá agora devolver o crucifixo.

Com guinada à esquerda, evitando o Juíz

Poderá tranquilamente inventar NOVA MATRIZ

Com seu cargo importante torna-se o mandachuva

A função, é evidente cabe-lhe como uma luva.

Perscrutando o horizonte, degustando acarajé

Poderá pedir, agora, Dilma, sirva um café.



Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Esta data já está definitivamente incorporada ao calendário. No dia 8 de março, o mundo inteiro comemora o Dia internacional da mulher. A perspectiva histórica aponta a origem da escolha, e, seria herética a separação da celebração, muitas vezes centrada na fogueira consumista, da longa história de lutas que as mulheres protagonizaram. Afinal, todas as profissões, praticamente, possuem um dia que as homenageia. Há uma profunda diferença. Seria leviano tentar equiparar o dia do advogado, por exemplo, ao Dia internacional da mulher. E por qual motivo não se instituiu o Dia internacional do homem, acrescentaria um cínico revoltado com essa injustificada discriminação. A pergunta permanece em aberto.

A segregação das mulheres, a associação da condição feminina a um nível inferior parece ter desconsiderado, durante séculos, o papel decisivo que elas sempre desempenharam. Não se tem notícia de homem ter protagonizado a função sublime de entregar ao mundo as crianças gestadas no seu organismo. Talvez, à luz dessa obviedade, faça sentido a frase de Alexandre Dumas “falar mal de uma mulher, sim, de todas, nunca”.

As sentenças que diminuíam as mulheres perdem-se na névoa dos tempos. “Nada pior que uma mulher, a não ser outra”, dizia Aristófanes. ”Cabelos longos, idéias curtas”, sentenciava Schopenhauer, para quem havia apenas dois tipos de mulheres, as enganadas e as enganadoras. Ao grande filósofo não ocorreu a possibilidade de haver a fusão desses tipos distintos.

O rótulo de “sexo frágil” procurou associar à mulher uma hipotética incapacidade de lidar com o dia-a-dia, refugiada que ela, ser meramente decorativo, objeto de devastadoras paixões, estaria num escondedouro de futilidades de onde obraria para enfeitiçar homens indefesos. “Frailty, thy name is woman”(fragilidade, teu nome é mulher) suspira um desconsolado Hamlet.

Claro está que, deixando de lado ‘efeitos especiais’ diferenças há, porém, equivocam-se aqueles que sustentam ainda hoje a dicotomia sexo forte – sexo frágil. Rotular a mulher de sexo frágil é tornar-se culpado de difamação, afirmava Gandhi.

Durante séculos, as mulheres tiveram de conviver com uma condição inferior, causada por uma divisão de trabalho que sempre as desfavoreceu. Poucas tinham acesso à uma educação melhor, cabendo à maioria o fardo da maternidade – esse inevitável – associado a condições de trabalho subumanas.

Em plena Revolução francesa, 1791, Olympe de Gouges reivindica o direito feminino a todas as dignidades e empregos segundo suas capacidades. Foi guilhotinada, dois anos mais tarde, resposta que a sociedade de então encontrou para ilustrar que o princípio da liberdade, igualdade, fraternidade possuía alcance limitado. A acusação? “Ter querido ser um homem de estado e ter esquecido as virtudes próprias do seu sexo.

Durante os séculos seguintes, as mulheres passaram a integrar a força de trabalho fabril, em jornadas que, não raro, chegavam a 14 horas diárias, durante seis dias por semana. Ao organizar um protesto contra as más condições de trabalho, pedindo uma jornada de trabalho de 10 horas, tecelãs de uma fábrica de vestuário feminino Tecidos Cotton, em Nova Iorque, foram obrigadas a refugiar-se dentro da fábrica, fugindo da polícia. As portas foram trancadas, foi ateado fogo à fábrica e, em 8 de março de 1857, 129 operárias morreram carbonizadas. A luta continuou, sendo que nos Estados Unidos o movimento por uma organização sindical foi liderado pelo setor têxtil , ressaltando-se a liderança de imigrantes judeus russos e poloneses.

Paralelamente, novos focos de tensão despontavam na Europa e nos EUA.

Em 1910 a segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas debate o tema e, a seguir, a ativista Clara Zetkin, muito ligada a Rosa Luxemburgo, propõe, no jornal L´Égalité, do qual era redatora, que o dia 8 de março fosse declarado Dia Internacional da Mulher, em homenagem às vítimas de 1857. No ano seguinte, mais de um milhão de pessoas comemoraram a data. Essa prática continuou nas décadas de 1910 e 1920.

Na Rússia, dia 23 de fevereiro de 1917, de acordo com o calendário juliano, correspondente a 8 de março do calendário gregoriano, trabalhadoras do setor de tecelagem entram em greve. Segundo

Trotsky, teria sido o ponto de partida da Revolução de outubro. Depois do triunfo da revolução, a feminista bolchevique Alexandra Kollontai persuadiu Lênin a tornar a data de 8 de março em celebração da heróica mulher trabalhadora. Enquanto no Ocidente essa comemoração perdia forças, na então União Soviética e, depois da segunda guerra, nos seus satélites, a data continuou sendo festejada.

Outra faceta da luta das mulheres foi a dedicada à obtenção do direito de voto. Em 1893 esse direito foi conquistado, pela primeira vez na Nova Zelândia. No Brasil, tal viria ocorrer em 1932 com o Código eleitoral — lei 21076 de 24 de fevereiro. Para não desmerecer o famoso “jeitinho brasileiro”, já em 1929, Alzira Soriano de Souza elegeu-se prefeita de Lages (RN).

Coincidentemente, em 1932, a delegação brasileira para os Jogos Olímpicos de Los Angeles incluiu uma mulher: Maria Lenk.

Em 1975, a ONU começou a patrocinar o Dia Internacional da Mulher, não por coincidência, durante o Ano internacional da Mulher.

Atualmente, passados os sobressaltos do feminismo exacerbado de Betty Friedan, com as queimas simbólicas de sutiãs, as mulheres se fazem cada vez mais presentes em todos os setores da atividade humana. Aquilo que era anômalo ou esporádico tornou-se normal. Se é normal que não as encontremos praticando futebol americano, não causa nenhuma surpresa vê-las presidindo um país. Não há mais atividade da qual as mulheres estejam alijadas. Desigualdades persistem ainda, embora seja possível afirmar que houve progressos gigantescos.

Pouco a pouco, é evidente a tendência de a data se tornar um evento, cuja conotação comercial tende a superar a história de lutas que a consagrou. O andar da carruagem há de reservar ainda muitas surpresas, embora algumas tendências possam ser consideradas como tendo prazo de validade indeterminado.

Por mais que se evolua nessa direção, uma evidência inarredável há de marcar para sempre. As palavras “mulher “ e “paixão” possuem o mesmo número de letras. As conclusões quanto a essa curiosidade são livres.

Ao reler o texto, percebi que acabei de me tornar culpado por excesso de objetividade. Nessa crônica deveria caber no mínimo o tradicional: "Parabéns a todas as mulheres do mundo"!

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Será ele Pinóquio, serei eu Gepetto?

Ao ver seu eleito, meu desafeto,

Conter-me prometo.

De passagem me ocorre o seguinte panfleto

De tão concreto,

Parece abjeto.

Linguajar seleto

E pouco discreto

O truão acalenta  infame projeto

Secreto.

Pretende ser vago mas é bem direto,

Envia um conto , depois um soneto

Devagar bagunçando o coreto....

Ostentando afeto,

Mas quadrado, feito cateto.

Será que politicamente correto,

Quando se diz de paixão repleto?

Desejo esmagar o maldito inseto!

Estranho dialeto

Liquidar este dejeto?

Que triunfo mais incompleto...

Represália melhor arquiteto

Pra liquidar este truque obsoleto

Ao escamotear-lhe da cobiça o objeto.

Humilhado o gajo será... por completo.

Maldade girando no espeto.

Banido por decreto,

Que não admite veto!

 

*Do livro ´´Desespero Provisório´´

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo." target="_blank">Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

É carnaval

Festival de serpentinas, já chegou o carnaval.

As escolas no desfile mostram a nossa pujança.

Derrotado foi o medo, triunfou a esperança.

Boquiabertos, os turistas pensam ver um bacanal.

Anne Krüger, Reed e Fisher todos de corpo presente

Ao som de atabaques tamborins e reco-reco

Esqueceram equações. Rogoff quase teve um treco.

O FMI se dobra ante a comissão de frente.

O desfile dura horas, consagrando o alto astral.

Distribuição de renda é assunto superado.

Jogaremos sempre duro e ninguém sai machucado.

Não importa o superávit, vale o tal de nu frontal.

Alegria contagiante.  Euforia sem barreira.

A problemas seculares , soluções vem a jato.

Já dizia o De Gaulle , nós somos sérios de fato.

O gigante se espreguiça, esperando a quinta-feira.

Do livro ´´Desespero Provisório´´, ED. Edicon


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`  e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Recentemente, reli essa pequena jóia de autoria do escritor vienense Stefan Zweig, aquele que se referia ao Brasil como sendo o país do futuro. Decorridos mais de 60 anos, ostentamos o mesmo rótulo, mas essa é uma outra história. O autor percorre, com sua maestria peculiar, os labirintos da mente humana, tomando como ponto de referência o jogo de xadrez. Reduzido à expressão mais despretensiosa, o jogo consiste em encurralar uma peça de madeira do adversário. Nada além disso. Trata-se, é claro, de uma simplificação, que se, por um lado tudo tem de verdadeiro, por outro lado, minimiza as tempestades mentais que estão por trás da movimentação de 64 peças sobre uma tábua quadriculada.

Eu mesmo fui um amador apaixonado por essa aventura. Isso começou quando tinha sete anos e terminou durante os anos de faculdade, durante os quais, por inércia, ainda tive algumas recaídas.

Os jogadores, que levam o jogo a sério, são seres bizarros. Muitas vezes, além do desempenho frente ao tabuleiro, protagonizam cenas estranhas. Alguns exemplos?

O campeão mundial Alekhine (vamos usar a grafia francesa, que, por definição, distorce tudo), num momento de fúria, urinou em direção ao público. Outro campeão mundial, Bobby Fisher, ao desafiar Boris Spassky em Reykjawick, profundamente incomodado com os reflexos da luz incidindo sobre o tabuleiro, declarou que não iria jogar nessas condições. Seu não comparecimento custou-lhe duas derrotas, depois das quais ministrou uma surra no detentor do título. Anos mais tarde, por razões pouco claras, deixou de defender seu título. Outro ex-campeão Gary Kasparov desafiado (e derrotado) por uma engenhoca da IBM, o tal de Deep thought (pensamento profundo), teve uma quase crise de raiva ao descobrir que numa partida que havia abandonado, ao enfrentar o computador, havia uma manobra que teria lhe garantido o empate.

Além de ser um confronto no qual, em tese, a sorte não influencia o resultado final, o lado psicológico possui uma influência nada desprezível. Vacilos de grandes mestres deliciam os neófitos; já que se os deuses do tabuleiro podem errar, por que negar esse direito aos diletantes? Os exemplos são inúmeros. Há mais de cem anos o mestre russo Tchigorin desafiara o campeão mundial W. Steinitz, e na última partida, estando em desvantagem de um ponto, precisava ganhar, para levar o match para uma prorrogação de três partidas. Conseguiu uma posição ganhadora, e ao deslocar uma peça defensiva, levou mate em dois lances. Coisa de principiante. No torneio dos candidatos de 1953 , Tigran Petrossian, que mais tarde viria a ser campeão mundial, perdeu a dama num lance grotesco. “Eles também erram”.

A infinidade de lances possíveis torna o jogo praticamente inesgotável em alternativas. No entanto, hoje, as análises tornam cada vez mais problemática a descoberta de uma novidade teórica nas aberturas. Já se foi o tempo em que valiam fórmulas mnemônicas como a do Dr. Tarrasch Der Springer am rande ist immer ein Schande (um cavalo à margem – do tabuleiro – é sempre uma vergonha). Graças ao contínuo aperfeiçoamento da técnica das aberturas, um grande mestre do passado, aterrissando num torneio de força média, teria grande chance de ser “varrido do tabuleiro” por um jogador de força mediana.

Além dos recursos lícitos, entra o fator humano. Trata-se de um combate de egos. Muitas vezes dar um lance fazendo estalar a própria peça ao encontro do tabuleiro, aparentando segurança, pode deixar o adversário em pânico. Um nada pode ser suficiente para fazer pender a balança para um ou outro lado. Um sorriso confiante de Korchnoi já levou nosso Mequinho à derrota. Mesmo jogadores sem retrospecto brilhante têm histórias saborosas para contar. Para ilustrar essa afirmação, irei recorrer às minhas lembranças.

Estava participando da competição Univ. de São Carlos x ITA (num modesto terceiro tabuleiro – ou seja, havia dois jogadores mais fortes no primeiro e segundo). A competição estava empatada. De Pretas joguei a Defesa francesa – para tornar o relato menos árido, a defesa consiste em responder ao avanço de duas casas do peão do Rei das Brancas com o avanço de uma casa do peão do Rei das Pretas. Conversa vai, conversa vem, fiquei com um peão de vantagem num final de torres. Como se tratava do peão da coluna da torre, todos os manuais ensinam ser esse um final empatado. Meu capitão veio, olhou o tabuleiro e disse: “empate logo isso”. Os termos usados foram menos eufônicos. Meu adversário propôs empate. Só fiz refestelar-me na cadeira, com ar ausente, e declarei. “Nesta posição, as Pretas ganham”. Não é que meu adversário errou e, poucos lances depois, abandonou?

Num torneio por pontos corridos, estava eu em primeiro lugar, antes da última rodada. Pelo sistema de emparceiramento, deveria jogar com o segundo, que estava meio ponto atrás. (uma vitória vale um ponto, o empate vale meio). Ou seja, um empate bastava-me, e para o outro, só a vitória interessava. Joguei, com as Brancas uma abertura sabidamente inferior para as Brancas: o ataque Fegatello, uma abertura que havia aprendido nos anos 50, ainda em Bucareste. Qualquer almanaque de farmácia informa ser essa abertura desfavorável às Brancas. Mas para tanto, “o inimigo” deveria ter lido o tal almanaque. Apostei, pelo que eu já sabia a respeito dele, que tal não era o caso. Depois do quarto lance (CF3-G5) “o inimigo” mergulhou num abismo de reflexão. Propus empate, que me dava o primeiro lugar. Ele pensou, pensou e deve ter levado uma bela meia-hora, durante a qual, levantei, circulei pela sala, examinado as outras partidas, voltando sempre apressado para ver se as Pretas haviam tomado alguma decisão. Já sabia que o adversário estava com medo, pois perdendo, iria para um quarto lugar empatado. Finalmente, ele aceitou o empate. O prazer não teria sido completo se não lhe mostrasse que empatou podendo ganhar. Ser gentil é próprio dos enxadristas. Não havia razão para fugir à regra.

Nem sempre as coisas correm tão bem. Jogando contra a Poli, com as Brancas, o adversário jogou a defesa Alekhine. Consegui cair numa cilada besta (as ciladas dos adversários nunca merecem epítetos melhores) e perdi, em poucos lances a “qualidade” (significa perder uma torre em troca de um bispo ou cavalo). Meu capitão aproximou-se e declarou: “Dançou” (novamente, o rigor me obriga dizer não ter sido esse o termo empregado). Fiz o diabo, congestionei a posição, (a ponto de meu capitão achar que realmente poderia salvar a partida) aparentei ar tranqüilo e despreocupado, caminhei pela sala, o adversário também, propus empate, ele recusou, e.... acabei perdendo. O sorriso do outro prevaleceu.

O jogo é maravilhoso. Dele guardo belas lembranças e imagino que o surto do politicamente correto em breve irá eliminar os termos de cunho racista: Brancas e Pretas. Quem sabe, leremos um dia: Nessa posição, as Afro-descendentes levam vantagem.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Papai Noel

– Você?

– Você!

Ficou tão surpreso quanto uma paralela ao encontrar uma outra e não era para menos. Lá estava o Alberto; divisando o Marcelo. Apesar da passagem dos anos, quase nada mudara.

Quase.

Alberto, prefeito do próspero município de Aldeia da Praia, mal podia acre¬ditar. Lá estava o Marcelo, o melhor centroavante da história do colégio Padre Anchieta, de chute certeiro e drible desconcertante, além de ter sido o crânio da turma. Lá estava o amigão Marcelo, um pouco mais gordo, com o sorriso a iluminar o rosto de um sósia perfeito de um Marlon Brando um pouco mais magro.

Após estudar medicina na capital, Alberto voltara para a sua cidade e, pas¬sados alguns anos, descobriu ser a política a sua verdadeira paixão. Apesar da profusão de legendas partidárias, em Aldeia havia, de fato, apenas dois partidos: o “nós” e o “eles”. Filiou-se ao “nós” e, graças ao seu discurso vi¬brante, rapidamente, conseguiu ser eleito vereador. Daí a ser prefeito, foi apenas uma questão de tempo. Uma administração competente o levara a um segundo mandato, cujo início estava sendo festejado naquele exato momento.

O jardim do casarão – sede da prefeitura – estava apinhado de gente. Tapi¬nhas nas costas, abraços efusivos e risadas abafadas pelo som de um con¬junto de músicos amadores, senhor inconteste dos ouvidos dos vitoriosos.

Um toldo cobria um pequeno estrado em cima do qual tronava uma espécie de púlpito com um microfone pronto para o inevitável discurso.

Legal ter encontrado o Marcelo.

– Fale-me um pouco de você, caramba! Que surpresa! Nem acredito. Por onde andou esse tempo todo?

– Fiz GeVê, e fui controller em algumas empresas grandes. Depois... hesitou um pouco... viajei para... o exterior... e cá estou de volta.

– Bom filho a casa torna. Que mais? Rápido pô, tenho que dar atenção a toda essa gente e ainda tenho que fazer discurso. Casou?

– Casei e... separei faz... uns anos.

– Precisamos conversar. Pretende ficar por aqui?

– Vou ficar, sim. A casa dos meus pais me coube na partilha. Meu irmão fi¬cou com a fazenda. Para falar a verdade, foi bom ter saído daqui e melhor ainda ter voltado.

– Vai gostar, tenho certeza. Bem, vou fazer a média com os meus eleitores. Putz, fiquei contente, mesmo. Só me fale uma coisa: continua aquele con¬quistador irresistível? Aqui não tem disso, viu?

– Que nada, sou um pacato senhor.

– Sei, sei. O pacato senhor está intimado a comparecer amanhã ao gabi-nete do Prefeito. Venha por volta das 5 da tarde. Tá?

E assim foi.

À conversa do dia seguinte seguiram-se muitas outras. Em pouco tempo, Marcelo voltou a conquistar a cidade. Conquistas diversas.

Não foi surpresa para ninguém a nomeação para o pomposo cargo de Se¬cretário de Finanças. Na Câmara de Vereadores até os “eles” não se opuse-ram. Afinal, Marcelo abrira mão de toda e qualquer remuneração, ao menos por um período de 6 meses. Depois, poderiam voltar a discutir o assunto.

Começou a era do turbilhão de idéias.

Para reforçar as finanças municipais, Marcelo sugeriu que se atualizasse o cadastro dos logradouros. Uma empresa especializada colocou ordem num banco de dados desatualizado, permitindo uma cobrança de um IPTU compa¬tível com o padrão das edificações.

Sem praticar nenhum abuso, a receita para o próximo ano iria mais que dobrar, permitindo ir além das promessas de campanha do Alberto.

– Alberto, precisamos dar uma modernizada nisso.

– O que tem em mente? Concordo que tem um cheiro de naftalina. Vale a pena melhorar o visual de tudo isso. A Prefeitura do século 21.

– Mas que visual que nada. Estou falando em equipamento não em mobi¬liário. Só porque apareceu uma grana vamos torrar?

– Sim, senhor secretário. Desculpe, senhor secretário.

– Estou falando sério.

– E eu então.

– Vamos ampliar o velho Anchieta, vai dar para aumentar os salários dos professores. O hospital poderá...

– Ó, você prepara o raio do orçamento. Ah, vamos parar com essa baba-quice de você trabalhar de graça. No fim vão acabar achando que...

– Ninguém vai achar, porque não tem o que achar...

Não era bem assim. “eles” bem que tentavam, só que para cada centavo gasto, o inatacável Marcelo tinha uma prestação de contas à prova de bala. Sempre alegre e sorridente, alem de comprovadamente competente, ele se tornara um unanimidade. O prefeito estava fazendo seu sucessor, para a total frustração da oposição encurralada. Diga-se, de passagem, que o máximo que “eles” haviam conseguido, foi tentar uma aproximação tentando aliciar o cra¬que. Por sua vez, o craque não parecia ter o menor interesse em mudar de time. De vez em quando, ele se refugiava na sua sala. A secretária, imposição do Alberto, (pára de querer fazer tudo sozinho!!!) levava-lhe, suspirando, um comprimido para dor de cabeça, às vezes até dois.

Qualquer assunto era uma oportunidade para o Marcelo impressionar os demais. Contudo, durante todos aqueles meses, jamais fizera alusão alguma ao seu passado.

O Natal estava chegando. Como de costume, a prefeitura iria organizar uma festa infantil. Só que desta vez, seria para “todas” as crianças do muni-cípio. Desnecessário dizer de quem fora a sugestão e de quem foi o anúncio. Tudo calculado. Com uma listagem enorme com classificação por idade e sexo, Marcelo conseguira negociar um pacote com uma fábrica de brinquedos. Trabalho de primeira. Não haveria a menor possibilidade de um marmanjinho de 12 anos ganhar uma boneca ou uma menininha de 2 anos ganhar um ca¬minhão de bombeiros. E não era só isso. Na entrada, todos receberiam um envelope no qual haveria um vale-brinde. Os mais sortudos receberiam um vale-cheque, possibilitando a compra de um brinquedo adicional. Para os de¬mais, o papelzinho marcaria “sorvete”.

Na véspera da festa, Marcelo ficou trancado no seu escritório, com mais uma das suas já famosas dores de cabeça e lá permaneceu enclausurado até altas horas com a impressora emitindo os vales-brinde.

No dia seguinte, a fanfarra do colégio estava dando as boas-vindas a todos, ao som do “gingobel”.

Discurso emocionado e emocionante do prefeito.

Mais um discurso comovente do diretor do colégio, elogiando a competente administração “sem a qual nada disto teria sido possível”.

Outro, finalmente, vindo da oposição, louvando a transparência da admi¬nistração, mas lembrando que o importante era o município e que, naquele momento, mais do que nunca, permaneceriam vigilantes para que tantas ou¬tras realizações não ficassem apenas nas promessas e sim... etc, etc, etc.

Teve início a distribuição de brinquedos. Pais emocionados apanhando as sacolas etiquetadas, e, numa urna aberta, o misterioso envelope, ouvindo atenta¬mente a recomendação “ só abram quando o Sr. Prefeito pedir”.

Finalmente o sinal.

Uma explosão indescritível de alegria, pessoas pulando, se abraçando, en¬tusiasmo infinitamente superior ao que se poderia imaginar.

A explicação foi trazida pelas centenas de pessoas brandindo cheques, cujo valor fez empalidecer o Sr. Prefeito.

Na mesma tarde, Marcelo voltava a ser internado!...

Crônica do livro “Mãos Outonais”, Ed. Totalidade

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.



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