NATAL PRESS

A Copa de 2014 está aí, e ainda lambemos feridas da anterior, num saudável exercício de autoflagelação. Não há novidades nisso. O saudoso Thomaz Mazzoni, famoso comentarista de A Gazeta Esportiva empacotou os descrentes na embalagem “legião do 16 de julho”, aludindo ao Maracanazo e ao pessimismo que se instaurou a partir da data, até a redenção de 1958. Integrantes da legião de técnicos de futebol que somos, emitimos predições sombrias, esperando, secretamente, encontrar mais adiante o desmentido dos nossos prognósticos...

Nem chegamos às semi, e a Copa 2010 terminou mais cedo, pelo menos para nós. Sobraram vuvuzelas, um estoque de camisetas auriverdes, bandeiras, apitos e outros artigos perfeitamente aproveitáveis em outras oportunidades. A pátria de chuteiras se refaz, aos poucos, do trauma, até certo ponto previsível. Comentários de sobra até 2014, mas é forçoso convir que o mundo não acabou, salvo informação que ainda não chegou até nós.

Delegamos a um grupo de atletas o resgate de glórias passadas e vejam só o que fizeram! Envergonhados, os torcedores tratam de cuidar silenciosamente a ferida aberta. Nem tanto, por favor.

A glória futebolística, se faz um bem indescritível, não é tudo.

De uma forma bastante insólita, tentamos fazer de um grupo de profissionais do ludopédio o instrumento de nossa afirmação. E nossa glória foi-se pelo ralo, por ter sido entregue nas mãos – perdão pés – de um grupo esforçado, porém limitado. Ocorre que salvo uma ou outra “gritante injustiça”, alinhamos o que de melhor havia.
Não fomos os únicos a reclamar. A mania é universal.

Da mesma forma que por aqui se lamentou o fiasco – se é que uma derrota futebolística possa ser chamada de fiasco – com tantas coisas mais sérias a nos atormentar, constatamos que não temos o privilégio da originalidade. Sarkozy (talvez Hollande teria agido de outra maneira , já que ele resolveu encarnar a mudança), em pessoa, resolveu investigar o que aconteceu com ‘les Bleus’ – que já ganharam o apelido de “les Bluffs”, na Itália se deplorou a falta do “verdadeiro futebol italiano” e por aí vai. O que seria o verdadeiro futebol de um país? Já sei: É verdadeiro quando ganha.
Onde foi parar o verdadeiro futebol brasileiro, exclamam viúvas inconsoláveis. Esse Dunga, retrucam outros, com tantos volantes. Onde já se viu? Convocação absurda, de um treinador que nada entende - bradam os mais exaltados. Dessa maneira, haverá quem duvide que Deus é brasileiro. E agora, esse Mano! Já está na hora de substituí-lo por alguém do ramo.

Perdemos em 2010. Não foi a primeira, e infelizmente, não será a última vez. É triste, mas daí virarmos desconsoladas carpideiras há uma boa dose de exagero que é melhor banir. Poderemos encarar a História de cabeça erguida. Não fomos parar no terceiro subsolo.

Longe disso.
Com o risco de levar uma vaia estrepitosa, vamos olhar para trás.
Em 1958, a convocação não foi uma unanimidade. Depois da conquista, ninguém mais reclamou da não convocação de Luizinho o “pequeno polegar”. Poucos terão a objetividade de lembrar que nas semi, massacramos a França sim, mas eles jogaram com dez, porque o Jonquet foi aleijado por um dos nossos – pouco importa saber quem, mas foi o Vavá – e, naquela época, não havia substituição. Certo, Clotilde?

Em 1962 abatemos a Fúria espanhola, mas alguém se lembra da anulação de um gol legítimo deles e da “esperteza” de Nilton Santos, que após cometer um pênalti em Gento, deu um passinho para a frente, enganando o juiz? E se fosse ao contrário? E por acaso, alguém se dispõe a recordar que Garrincha fora expulso na semi, consequentemente não poderia ter disputado a final, não houvesse um providencial “sequestro” do árbitro.
Em 1970, jogando contra o Uruguai, Pelé não deveria ter sido expulso, após uma cotovelada em Matosas, igualzinha àquela que motivou a expulsão do Leonardo, contra os Estados Unidos, em 1994? Claro que não! O juiz até deu falta a nosso favor!
Isso quer dizer que nossas vitórias não valeram? Claro que valeram, além de demonstrar que se o futebol se ganha “nos detalhes”, algumas vezes, os detalhes também estiveram a nosso favor de maneira inconteste.
Fala-se da seleção de 1982 como a grande injustiçada. Detalhe: no jogo com a União Soviética o juiz não viu um pênalti escandaloso de Luizinho. Depois, perdemos da Itália, mas será que se o técnico tivesse convocado Leão, ele não teria agarrado ao menos um dos três petardos de Paolo Rossi que arrancaram lágrimas do garotinho, na foto premiada do Jornal da tarde?
Ah, essas convocações! As vozes chorosas que lamentam a pubalgia de Kaká – o que diabo é essa pubalgia? Com pubalgia e tudo a bola que ele chutou só não entrou porque o goleiro holandês fez o que os holandeses, incluindo a Casa Real, esperavam dele: defendeu. Esse é o mal do qual padecem os goleiros inimigos.
Recordam a Copa de 1986, quando Zico, meio baleado, saiu correndo do banco de reservas para chutar mal um pênalti contra a França? Depois, é fácil criticar o grande Telê - tão malhado pelo Jô Soares, perdão, Zé da galera - por não ter colocado pontas em 82, ou ter barrado Renato Gaúcho que se atrasara num treino em 86. Jogando sem Pato, sem Ganso - os canarinhos órfãos não deram conta do recado em 2010. Fracasso de nossa avicultura?
Gostamos de sofrer? Claro. Dirigimos olhares saudosos para nossas conquistas passadas e esquecemos pequenos detalhes que poderiam ter invertido alguns resultados, como o gol anulado da Bélgica em 2002 ou o satélite artificial lançado por Baggio em 1994.
Vamos ignorar os jogos restantes e vamos pensar na Copa de 2014, com a inevitável bagunça administrativa que a antecederá. Se algo der errado (tomara que não) poderemos nos insurgir contra as sempre presentes “forças ocultas” personificadas por perversos Mr. Ellis – árbitro do jogo Hungria 4 x Brasil 2, num distante 1954, que provavelmente nada fez de tão errado para merecer os insultos dos nossos gloriosos locutores de uma época sem TV, câmera super-lenta etc.
Seremos HEXA ou hexagerados. Tudo dependerá dos caprichos dos deuses do futebol e do superfaturamento.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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