Sócrates é mortal, qualquer cachorro é

mortal, logo Sócrates é um cachorro.

Isaura e Florisvaldo casaram-se após um breve namoro. Foi uma cerimônia simples, mas muito emocionante, com a indefectível promessa de dedicação de corpo e alma, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, e nas mais diversas situações antitéticas, até que a senhora da foice os separasse. De mãos dadas, enfrentaram a reforma do apartamento, prestações atrasadas, o registro no Clube da Divida Ativa, a execração do SERASA e o choro de criança do filho dos vizinhos, mas pouco tempo depois, graças a um casal de gêmeos, devolveram com sobras os decibéis inoportunos.

Cupido fizera um trabalho admirável. É isso que dá usar flechas de qualidade superior. Nada parecia poder turvar a harmonia do casal. Porém, por melhor que fosse a obra de Eros, o máximo que conseguiu foi o selo de eterno enquanto durasse, como alguém já disse agitando um copo de uísque. Eis que, os germes da dúvida começaram, aos poucos, a minar a confiança absoluta de Isaura no seu amado. De início, ela afastou com legítima indignação as suspeitas que invadiam sua mente, mas para não fugir à regra, uma vez instalada a desconfiança, nada consegue deter a evolução desse processo infeccioso. É preciso dizer que Isaura era uma ciumenta de carteirinha, sem nenhuma anuidade em atraso.

Em homenagem à transparência, não guardou as dúvidas para si e fez parte de suas inquietações ao marido, recebendo um categórico e colérico desmentido. “Como pode imaginar! Nunca, jamais, em hipótese alguma...”. Como essa manifestação enérgica fora insuficiente para aplacar a desconfiança, Florisvaldo teve uma idéia, afinal de alguma coisa deveria servir sua sólida formação em Direito. De comum acordo, celebraram um contrato informal, que poderia ser resumido assim: Havendo traição, o casamento seria desmanchado, sem direito a apelação. Da mesma forma, a prática da mentira, levaria a idêntico resultado. Por outro lado, a fidelidade e a verdade teriam como prêmio a perpetuação do himeneu, até a ocorrência de uma das falhas listadas anteriormente. Houve algumas discussões de pouca importância – resumidas nas famosas cláusulas que costumam figurar em letras miúdas nos contratos de adesão. Por exemplo, frases do tipo: “Stalin morreu em 1953” ou “Machado de Assis escreveu O alienista”, por mais verdadeiras que fossem, por retratar fatos de domínio público, seriam inócuas, sem poder garantir a fortaleza do casamento. A recíproca valia também. Mentiras inocentes do gênero: “Diga a sua mãe que hoje iremos ao teatro” ou “Meu filho, se você for bom aluno, garantirá um futuro brilhante” não seriam objeto de penalidade. Isaura concordou com a proposta, mas nem por isso deixou de lado a desconfiança, lançando de supetão perguntas embaraçosas, fazendo deduções em voz alta, indo até procurar evidências incriminatórias nos bolsos do ser querido. Todas as artimanhas foram inúteis. Nem por um instante lhe ocorreu que o capítulo ciúme não cabe no livro da Lógica, sua leitura predileta. Até que um belo dia, na hora do jantar, Florisvaldo declarou:

-Tenho um caso, querida. Poderia passar-me o sal?
A frase caiu como uma bomba, cujo efeito imediato foi comprometer os sólidos alicerces da união. Mal conseguindo esconder as lágrimas, Isaura saiu correndo, atirou-se sobre o, leito conjugal e depois de empapar seu travesseiro, passou a refletir. Se, de fato, ele tivera uma aventura, significaria o fim do casamento, cujas fundações pareciam definitivamente comprometidas. No entanto, o fato de ele ter dito a verdade, implicava na continuidade da relação. Trato é trato e deve ser cumprido. Pacta sunt servanda – de acordo com Florisvaldo e com o dicionário de citações latinas. Não contente com essa conclusão, Isaura aprofundou a análise. E se Florisvaldo mentira? A peta significaria, igualmente, o fim do matrimônio. Kaputt! Mas se o tal caso fosse apenas uma invenção, Florisvaldo continuara sendo fiel, o que de imediato, dava vida perene à união deles. Isaura percebeu que fora presa numa armadilha lógica e não vislumbrou nenhuma saída. Voltou à mesa, incapaz de fazer qualquer tipo de pergunta e o jantar transcorreu num silêncio sepulcral, na expressão de premiadíssimos autores. Num esforço supremo, Isaura decidiu não fazer qualquer tipo de perguntas. Seguiram-se dias de reflexão, animados como a marcha fúnebre de Chopin. Isaura continuava à procura de uma solução. Enquanto isso, Florisvaldo saboreava seu triunfo e o término do terrorismo conjugal.

Qual não foi seu espanto, quando, alguns dias depois, na hora do jantar, antes do Jornal Nacional, durante uma insuportável inserção eleitoral gratuita, Isaura emitiu com doçura:
- Querido, tenho um caso. Poderia me passar o pão?

*Crônica do livro ´A luta continua`, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br
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