NATAL PRESS

Era preciso encontrar um assunto. Depois de meses em busca de algo mais concreto do que eventuais bicos, havia conseguido enfim uma bela posição no principal jornal da cidade. Além de coordenador da seção de esportes, era também responsável por uma coluna diária de crônicas.

O começo tinha sido muito animador e produzira vários textos muito bons na opinião dos colegas, dos leitores e das suas admiradoras, a sua mãe e a sua esposa. Lembrava ainda que, na empolgação inicial, conseguira criar um verdadeiro seguro contra possíveis imprevistos, escrevendo algumas crônicas além da obrigação diária. Em alguns dias especialmente produtivos, tinha escrito entre três e quatro matérias. Assim, a menos que algum assunto especial demandasse um comentário, podia tranquilamente procurar no seu estoque algum material, todas as vezes que houvesse deserção por parte da sua inspiração, em geral presente aos encontros marcados. Aos poucos, a situação passou a se inverter, dias estéreis alternavam-se com dias produtivos, e as reservas minguaram, tragadas pela necessidade da publicação diária da coluna, confrontada com uma produção que de fecunda estava passando a irregular.

De confortável, a situação havia se tornado crítica naquela quinta-feira.

Era preciso conseguir a qualquer custo honrar o seu compromisso, e não tinha a mais remota ideia do que seria a crônica que estaria sendo impressa dentro de algumas horas.

Restava-lhe muito pouco tempo, e estava aterrorizado com a perspectiva de, pela primeira vez, falhar no compromisso. Eles não iriam republicar uma crônica antiga, não havia a menor chance de que isso acontecesse. Provavelmente dentro de menos de uma hora, a página seria rediagramada, sem a sua coluna, apareceria uma observação do tipo “por motivos de força maior, hoje deixamos de publicar a coluna Caleidoscópio”.

Imaginava as explicações que teria de dar, e sentia-se como um colegial em falta.

Estava no canto da sala transformado em escritório, remexendo-se sem parar na sua cadeira, em frente à mesa, com o microcomputador ligado, uma pilha de revistas juncando o chão em sua volta, o cinzeiro cheio de tocos de cigarro, um copo de uísque no qual nadavam cubos de gelo em adiantado estado de decomposição, e de lá lançava um olhar suplicante ao teto, em busca de alguma ajuda.

Para variar, o teto pouco contribuiu, além de insi¬nuar estar necessitando de algum trato.

Precisaria de um produto que limpasse “mais branco”, pois agora o teto estava “menos branco”, estava cinza, cinza como o céu no poema de Verlaine, só não caíam pingos de chuva no seu coração como caíam na cidade.

As crianças já deviam estar dormindo. A esposa estava no quarto de onde vinha o murmúrio confuso de um programa de televisão.

Aquilo era irritante. Havia pedido tantas vezes que o volume da televisão fosse deixado alto o suficiente para poder acompanhar as falas, ou baixo a ponto de não perturbar. Aquele burburinho somente servia para aguçar-lhe a curiosidade, tirando completa¬mente sua concentração.

Procurou a garrafa térmica em cima da pequena bandeja, apanhou uma xícara e colocou café para rebater o torpor causado pelo uísque. O espetáculo da mesa de trabalho nada tinha de animador. Reinava a mais completa desordem: a bandeja de café, recoberta com fórmica, com uma parte enegrecida devido a uma desastrada proximidade com a chama do fogão, o cin¬zeiro repleto, o bloco de anotações aberto, o copo cheio de lápis e canetas Bic, na sua maioria sem tampinha protetora, alguns disquetes, evadidos sabe-se lá como de uma das caixas que compunham uma pirâmide quase asteca, a indefectível foto de família numa moldura provida de um vidro protetor. No espaço entre o vidro e a moldura, uma foto três por quatro do filho mais velho, para a renovação da car¬teira do clube, e uma conta de luz a pagar. Uma agenda, da qual emergiam papeluchos com pequenas anotações, aberta e virada com a capa para cima e, finalmente, a pequena impressora, esperando pacien¬temente que seus préstimos fossem solicitados.

Levantou-se e deu alguns passos pela sala. Somente a mesa recebia o facho de luz de uma lumi¬nária embutida no teto, o resto do ambiente estava mergulhado numa penumbra discreta.

Sentou-se numa poltrona e fitou o cone de luz no qual notava a subida de uma coluna de fumaça que um cigarro mal apagado lançava ao ar. Com os pés em cima da mesinha de centro, continuou imóvel, mastigando a extremidade de um lápis que, através deste processo, estava começando a se parecer com um pincel. Lembrou-se de broncas passadas por ter ficado com os pés em cima da mesa, desfez-se dos sapatos com movimentos tão bruscos que foram parar no meio da sala. Precisaria tomar cuidado, ao ir dormir, para não tropeçar neles e se esborrachar. Mas isto era uma preocupação para o “depois”. Imaginou por um momento o tropeção, o estalo da cabeça chocando-se com a quina do pequeno baú, o desmaio, o ruído da sirene da ambulância, pessoas atarefadas ao seu redor, tentando reanimá-lo.

– É grave, doutor? – a voz preocupada da esposa, misturando-se ao choro das crianças.

– Não sabemos ainda, será necessário um período de observação, uma tomografia, uma radiografia, uma ressonância magnética. Tem de ser internado imediatamente. Vocês têm um plano de seguro saúde? Qual? Ah, este não cobre a totalidade dos exames. É o Completo Júnior, mas só o Absoluto Estrela cobre todos os exames. Estou apenas alertando, porque no hospital poderá haver dificuldades.

– Mas como? Sempre nos foi dito que a cobertura era completa, vamos aos jornais, ao rádio, à televisão, ao Procon, ao Ministro. Para que seguro, então?

– Vamos tentar salvá-lo primeiro, minha senhora. Ele perdeu muito sangue.

– Justo no carpete novo...

– Não se preocupe – era a vizinha do andar de cima – tenho um produto que remove todas as manchas, posso lhe ceder, e depois, quando tiver tempo, venha participar de uma reunião do nosso grupo que distribui o produto. Além de ter a casa limpa, poderá ainda alcançar o conforto material. É a solução, dizia, apontando para um pequeno distintivo espetado na lapela de um paletó, colocado por cima do pijama, na pressa de acudir. Presumivelmente, o paletó do marido.

– Deixe a pregação para depois, veio a voz abafada do marido.

– Está chovendo lá fora...

Carregado na maca, o elevador, os curiosos em volta da ambulância e a sensação refrescante da chuva no seu rosto.

– Abre, sai da frente, deixem passar!

A saída em disparada. Pelo vidrinho da porta traseira, via a esposa correndo atrás da ambulância. Parecia filme italiano dos anos sessenta, faltavam os gritos “Il mio marito!!!”

O hospital, os médicos mascarados, a maca deslizando pelo corredor.

Sacudiu a cabeça. Estava divagando. Não tinha acontecido tombo algum. E o melhor de tudo havia encontrado. Heureca! Não teve de sair da banheira correndo, qual Arquimedes. Bastou dirigir-se para a mesa, tomando cuidado para não tropeçar em algum pérfido sapato.

Começou a escrever febrilmente.

Tropeçou, ouviu-se o estalo da cabeça chocando-se com a quina do pequeno baú...

 

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´A luta continua` e ´A Volta´ (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.



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